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ano 4 - número 849 - quinta-feira, 31 de março de 2005
Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício!

Se resistimos às nossas paixões, é mais pela fraqueza delas que pela nossa força.

La Rochefoucauld

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Mudando de lado
O posicionamento ambíguo do governo Lula em relação à Medida Provisória 232, que aumenta a carga tributária e reajusta a tabela do Imposto de renda, chega a ser intrigante. Quando, no apagar das luzes de 2004, editou sorrateiramente a Medida Provisória, o Palácio do Planalto alegou relevância e urgência. Ontem, em mais um dia de derrota política, o governo Lula trabalhou para adiar a votação da MP 232, temendo que apenas a correção da tabela do Imposto de Renda fosse aprovada. Ora, e a relevância e a urgência que existiam no último dia do ano?

Farra vermelha
Criado para operar o chamado micro-crédito, o Banco Popular é o mais novo fiasco do governo Lula. Rotulado como fantasmagórico pelo senador José Agripino (PFL-RN), o Banco Popular já apresenta um prejuízo de R$ 40 milhões, extremamente alto se considerados os R$ 92 milhões investidos até então. Mas a inoperância perdulária pode ter uma explicação. Capitaneada pelo senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), a oposição está debruçada sobre R$ 25 milhões investidos pelo Banco Popular na produção de panfletos. Considerando-se que o tal micro-crédito é voltado à população de baixa renda que quer investir em seu negócio, o dinheiro gasto pelo banco no material publicitário equivale a 96.153 salários mínimos. Assim, resta dizer que se o crédito é micro, o truque é macro.

Boi na linha
Com as recentes declarações do ministro Márcio Thomas Bastos, que anunciou uma operação de correição na Polícia Federal, as relações do órgão com o Palácio do Planalto nunca estiveram tão explosivas. A partir do momento que o governo Lula passou a investir contra a PF, deflagrando ações das mais diversas, alguns policiais federais têm se empenhado em bisbilhotar os podres da turma instalada no poder. Nos últimos dias, muito à boca pequena, o assunto mais comentado nos bastidores policiais é sobre uma empresa de telecomunicação de nome Transit. Quem teve acesso aos documentos garante que, além de bisonho, o assunto é uma verdadeira bomba que pode cair sobre cabeças coroadas do Palácio do Planalto.

Ligação incompleta
Ainda as telecomunicações... Os mais atentos, especialmente aqueles que militam no intrincado mundo dos investimentos, devem ficar de olhos bem abertos para uma manobra que pode revolucionar o já polêmico mercado de telecomunicações no Brasil. Não demora muito e os brasileiros vão começar a ouvir falar em uma empresa até então desconhecida. Trata-se da TeleCayman, uma empresa de telefonia com sede no paraíso fiscal das Ilhas Cayman. E qualquer relação com os mais famosos freqüentadores dos tribunais do arquipélago não será mera coincidência.

Batendo duro
A CPI do Setor Elétrico, que vai investigar as privatizações das empresas de distribuição de energia durante a era FHC, deixou de ser instalada pela terceira vez consecutiva. Quando percebeu algum tipo de resistência a seu nome, o deputado Wladimir Costa (PMDB-PA), indicado por Severino Cavalcanti para ser o relator da comissão, renunciou, como forma de permitir que a CPI fosse instalada e o assunto devidamente elucidado. Ontem, por uma sórdida manobra do Palácio do Planalto, a CPI não pode ser instalada por falta de quorum. Certamente porque o PT e seus aliados sabem que o presidente Lula, ao declarar ter abafado a divulgação de casos de corrupção no governo FHC, não sabia o que estava fazendo. O fato é que se depender da vontade do deputado Wladimir Costa, os culpados podem ver o nascer do sol de maneira geometricamente diferente.

Caindo fora
Não é de hoje que a teoria dos dois pesos e duas medidas tem sido comumente adotada pelos mais diversos segmentos da sociedade, mas às vezes sua adoção beira a irresponsabilidade. A Ordem dos Advogados do Brasil – OAB, que por convicção e conceito deveria dar o exemplo quando o assunto é transparência, se recusa a ter suas contas analisadas pelo Tribunal de Contas da União. Ora, se a OAB vive e sobrevive de tudo o que tramita nos tribunais, independentemente da natureza de cada um, chega a ser estranha a recusa. É verdade que nem toda cartola de mágico tem apenas coelhos, mas neste caso pode existir muito mais ratos do que a vã filosofia imagina.

Pedra no sapato
Ejetado do Ministério da Saúde por seus desentendimentos com o ministro Humberto Costa, o ex-secretário-executivo da pasta, Gastão Wagner de Sousa Campos, pode ter sido uma vítima indireta do senador licenciado e agora ministro da Previdência, Romero Jucá. Alvo de investigações da Procuradoria Geral da República, Jucá, quando relator do orçamento no Senado, não emplacou uma emenda parlamentar de sua autoria, que previa o investimento de R$ 30 milhões em saneamento básico. E o veto coube a Gastão Wagner.

Saindo na frente
Antecipado pela coluna, com exclusividade, a nefasta relação entre o MST e as organizações que lhe dão respaldo financeiro é o alvo de uma série de reportagens apresentada pela Rede Bandeirantes. Por não ser uma pessoa jurídica constituída, o MST utiliza a Associação Nacional de Cooperação Agrícola (Anca) e a Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil (Concrab), esta com sede em São Paulo, para receber os polpudos dízimos liberados pelo governo Lula. Não se trata de discutir a legalidade do dinheiro público entregue indiretamente ao MST, mas questionar de quem será a responsabilidade no caso da lei ser transgredida. Afinal, não se pode processar, civil ou criminalmente, algo que não existe.

Eu tenho a força
O prefeito do Rio, César Maia, ocupa hoje o horário político para, em nome do PFL, condenar a intervenção federal nos hospitais cariocas. Longe da inquisição tendenciosa a que foi submetido no programa Roda Viva, César Maia aparecerá na telinha como o anti-Lula, mostrando, inclusive, que reúne condições de derrotar o presidente em 2006. Erros e acertos de ambos os lados à parte, o fato é que César Maia pode acabar sendo vítima de um excesso de exposição antecipado. Por mais forte que seja o PFL e sua oposição contundente, é preciso lembrar que o presidente Lula, ao contrário do discurso de duas décadas, tem a máquina pública na mão. A não ser que César Maia tenha aceitado ir para o sacrifício, apenas para continuar como, a exemplo do que disse, o Rei do Rio.

Despacho de encruzilhada
Quando adquiriu o Banco do Estado da Bahia, o Baneb, o Bradesco garantiu, por cinco anos, o gerenciamento das contas bancárias oficiais. Com validade até o até o início deste ano, o acordo foi prorrogado por mais cinco anos, sendo que o Bradesco terá sobre o seu comando, pelo menos no âmbito bancário, a tutela de um orçamento anual que ultrapassa os R$ 14 bilhões. No plenário da Câmara, a deputada Alice Portugal (PCdoB-BA) denunciou o espúrio conluio entre o Bradesco e o governo baiano, lembrando que a aprovação do novo acordo foi garantida por uma série de benesses concedidas pelo banco, como a doação de sessenta e três veículos para a Assembléia Legislativa baiana, responsável pelo referendo final à prorrogação. Não é à toa que o Bradesco adotou um simpático rato como mascote.

Números desencontrados
Tivesse nascido na Lapônia, o diretor-geral da ala brasileira da Itaipu Binacional, Jorge Sameck, seria um Papai Noel. Em 3 de junho de 2004, os paraguaios, sócios na hidrelétrica, contrataram os serviços do ex-ministro da Fazenda do Chile, Eduardo Aninat, para analisar a dívida da Itaipu Nacional. Para poder contar com os pareceres de Aninat, os paraguaios desembolsaram o equivalente a US$ 33.900,00. Bastou atravessar o rio Iguaçu para que os números mudem assustadoramente. No lado brasileiro, a usina contratou por US$ 73.250,00 os serviços do consultor John H. Gummer, para analisar o projeto executivo e montagem de turbinas e outros equipamentos. E mais: para reforçar ainda mais o caixa do consultor, a Itaipu Binacional se responsabilizou pelo pagamento de cinco viagens internacionais e trinta e cinco diárias. Resumindo, o ex-ministro do Chile não sabe cobrar ou o consultor de turbinas é um gênio.

Chapéu alheio
Livre dos olhos atentos do Tribunal de Contas da União, o capítulo brasileiro da Itaipu Binacional continua sendo aquela benevolente cornucópia de sempre. Sem nenhum motivo que justificasse o ato, o diretor administrativo da empresa, Rubens Bueno, achou por bem dar abrigo a Diónedes Pastorello, presidente nacional do Sindicato dos Aeroviários. Um contrato de comodato vai permitir que Pastorello se instale em uma confortável casa de propriedade de Itaipu. Alguém precisa explicar qual a tão necessária e urgente relação entre o Sindicato dos Aeroviários e uma usina hidrelétrica. Enfim...

Luz de velas
Se arrependimento matasse, o prefeito José Serra já teria sido sepultado. Ontem, pelo segundo dia consecutivo, os principais prédios da prefeitura paulistana amanheceram sem energia elétrica. A Eletropaulo, empresa responsável pela distribuição de energia elétrica na capital paulista, resolveu interromper o fornecimento de luz à prefeitura paulistana por falta de pagamento. Uma decisão judicial determinou a retomada do fornecimento de energia, mas, até ontem, a empresa não tinha sido notificada oficialmente. Mesmo assim, a Eletropaulo terá até vinte e quatro horas para restabelecer o fornecimento de energia aos prédios da prefeitura. Se José Serra não tem vocação para anjo, Marta Suplicy menos ainda. Ao deixar a alcaidia paulistana, Marta Suplicy empurrou aos paulistanos um rombo de R$ 8 bilhões nas contas públicas, fazendo da maior cidade do país a materialização da inviabilidade administrativa. Em um país menos irresponsável que o nosso, Dona Marta já estava presa há muito tempo.

Contribuição inocente
As ações com os pedidos de reintegração dos bancários demitidos do Banespa e do Banestado – certamente não serão reintegrados – começam a chegar ao Tribunal Superior do Trabalho. Se o TST irá se valer da diuturnamente vilipendiada Constituição Federal para não atender o pedido dos bancários, bom seria se que a Justiça investigasse as nababescas regalias que muitas autoridades desfrutam, sem que a sociedade conheça os verdadeiros patrocinadores. Uma simples passada pela Península dos Ministros seria o suficiente para perceber que ali, na região mais nobre e disputada de Brasília, existe um banco de vantagens. Mesmo que digam que este banco foi feito para você.

Trânsito paralelo
Pensando bem, o comissário de Lula pode acabar ouvindo um sinal de ocupado do dia para a noite.

Ucho Haddad

 

Querendo entender...

Ao que tudo indica, a Operação Vampiro não serviu para nada. Por quê? Afinal, perguntar não ofende...

O melhor do esporte brasileiro e internacional com o maior jornalista esportivo do país

Clique na lupa e confira os detalhes dos mais recentes e polêmicos escândalos que abalaram as estruturas políticas do país

Destaques

e-ditorial: "A visão usual da ilegalidade" - por Ucho Haddad

e-xclusiva: "Barrados no baile - o direito de voto do preso"

Resenha: "A política na bacia das almas" - por Ucho Haddad

Q.I.: "A eminência parda do cardeal" - por Pedro Luís de Campos Vergueiro

Tribuna Livre: "Fundo Internacional de Cabides" - por Ralph J. Hofmann

Prateleira Eletrônica: "As 100 Melhores Crônicas de Humor" - por Sandro Villar

Boca Maldita: Alguns dos escândalos que marcaram a política nacional

Túnel do Tempo

Doutor Promessinha
Há meses, quando o fogo consumiu um prédio histórico de Ouro Preto que abrigava um hotel, o presidente Lula pegou carona na tragédia e prometeu reconstruir o edifício que, segundo suas promessas, deveria ser inaugurado no próximo dia 21 de abril. Prestes a comemorar mais um aniversário da Inconfidência Mineira, a belíssima Ouro Preto continua com um enorme buraco no local onde um dia existiu um hotel. E agora presidente? (31/03/04)

Boca Maldita

Na página Boca Maldita você encontra a pizza meia Zé Dirceu - meia Waldomiro, em versão para impressão; a lista dos senadores e deputados que votaram contra o salário-mínimo de R$ 275; além de detalhes da agenda de Waldomiro Diniz e o primeiro depoimento do juiz João Carlos da Rocha Mattos.

Dica do Ucho

Paris recebe as Áfricas do Brasil - Exposição de 50 fotografias de Catherine Krulik no Centro Cultural Clichy-sous-Bois apresenta nossas festas, nossos rituais e tradição. Somente na programação oficial do Ano do Brasil na França, Krulik tem destaque em três grandes mostras diferentes, com trabalhos que mostram sua habilidade e arte com as imagens. Além dessa, já está com 94 painéis gigantes no Futuroscope e agora, na segunda quinzena de março, dia 17, na prestigiada área arquitetônica Cité de la Musique.

“Brasil, o país dos Carnavais”

(www.krulik.com.br/futuroscope)

“Les Afriques du Brésil”

(www.krulik.com.br/clichy)

“Cité de la Musique”

(www.krulik.com.br/cite)

Editora Senac São Paulo

A costura do invisível - Em 17 de junho de 2004, no maior evento de moda da América Latina – o São Paulo Fashion Week – e diante de uma platéia de 1.200 pessoas, o estilista Jum Nakao realizou uma performance em que, ao final do desfile, as modelos rasgaram elaboradíssimas roupas de papel vegetal construídas em mais de 700 horas de trabalho, que envolveram cerca de 150 profissionais. Todas as etapas desse processo foram documentadas em fotos, vídeos e fotogramas, dando origem ao livro e DVD A costura do invisível, lançados pela Editora Senac São Paulo.

www.editorasenacsp.com.br

 

 

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