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ano 4 - número 844 - quarta-feira, 23 de março de 2005
Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício!

As circunstâncias não fazem um homem. Elas apenas o revelam.

James Allen

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Burros n'água
Após quase sete meses de encubação, o presidente Lula decidiu suspender as negociações para concluir a reforma ministerial, anunciando, de forma pífia e vergonhosa, uma mudança que, se chamada de remendo, pode ser considerado um elogio desbaratado. O ministro Amir Lando foi substituído pelo senador Romero Jucá na pasta da Previdência, o que denota que o PMDB vai continuar com o que já possui. O deputado Paulo Bernardo (PT-PR) assumiu o Ministério do Planejamento, que até então vinha sendo comandado interinamente por Nelson Machado. Logo após as eleições municipais, o presidente Lula defendeu a tal reforma, alegando que era necessário melhorar o nível técnico do governo e otimizar politicamente a base de sustentação do governo no Congresso. E como a reforma foi um fiasco, resta ao governo admitir que nem as moscas foram mudadas.

Marcha à ré
O recuo acovardado de Severino Cavalcanti, depois da ameaça que fez ao presidente Lula em Curitiba, parecia não ter explicação, pelo menos para os que não são íntimos da política. No encontro que manteve com Lula no início da noite de segunda-feira, no Palácio do Planalto, Severino ouviu do presidente que todos os cargos no governo ocupados por membros do PP seriam requisitados imediatamente. Severino Cavalcanti colocou um de seus filhos na delegacia da Agricultura, em Pernambuco, enquanto o deputado José Janene (PP-PR) tem um de seus afilhados políticos na diretoria da Petrobras. O sortudo é responsável pela aquisição de petróleo no mercado internacional, situação que obriga Janene a viajar ao Rio de Janeiro quinzenalmente. E na Câmara dos Deputados, tais viagens à Cidade Maravilhosa já foram batizadas como os vôos de Fênix. E para quem não se recorda, Fênix é, para os fanáticos pela mitologia, a deusa da fortuna.

Inimigos por um tempo
Mas o remendo ministerial vai continuar... O presidente Lula deve convidar o médico e deputado Pedro Henry (PP-MT) para assumir a pasta dos Esportes, e a senadora Roseana Sarney, que pode substituir o ministro Ciro Gomes na Integração Nacional. Mas tudo isso só acontecerá no final de junho, depois que toda a poeira baixar. Por enquanto, José Sarney e meia banda do PP devem continuar com o maior bico.

Batendo duro
Como era de se esperar, a reforma ministerial anunciada pelo Palácio do Planalto tomou conta do mundo político brasileiro nesta terça-feira. A incapacidade gerencial do presidente Lula foi a bola da vez em todos os pronunciamentos do Senado, tendo merecido os mais diversos e hilários adjetivos. O senador Almeida Lima (PSDB-SE), ao comentar a demora de tão pífia reforma, disse, ao final de seu discurso, que a montanha havia parido um rato. Mas a crítica mais ácida, como sempre, o que em momento algum deixou de ser lógica, partiu da senadora Heloísa Helena (PSOL-AL). A parlamentar alagoana disse, com todas as letras, que o governo Lula é literalmente fraco, pois se acovardou diante da ameaça do deputado Severino Cavalcanti. Desnecessário comentar.

Viola no saco
Ainda a senadora... A senadora Heloísa Helena (PSOL-AL), usando da coerência e da transparência que sempre a acompanharam na vida pública, colocou seus pares em situação absolutamente delicada. Com a edição de sábado do Correio Braziliense nas mãos, Heloísa Helena disse não saber qual a técnica utilizada pelo Senado para ludibriar a imprensa e os jornalistas. A senadora alegou que determinada matéria jornalística afirmava que o Senado estava pesando em aumentar a verba de gabinete, quando o assunto já estava aprovado desde a última quinta-feira. E mais: dizendo que não participa de farsas, Heloísa Helena disse que a verba de gabinete dos senadores – a que chamou de luxo do lixo – corresponde a três vezes o valor da verba aprovada pela Câmara dos Deputados. Eis um tipo de delação absolutamente perdoável e necessária.

Beco sem saída
Enquanto o governo Lula posa como Messias da Saúde no Rio de Janeiro, o senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) anunciou, no plenário do Senado, que enviará ofício ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, pedindo explicações sobre o desvio de medicamentos do governo federal para atender as necessidades das Farc. O senador amazonense espera que o ministro não se restrinja ao perfil protocolar das respostas que o cargo lhe impõe, mas esclareça à opinião pública mais um descalabro que vem ocorrendo com a anuência do governo Lula. No contraponto, o assunto sobre a morte das crianças indígenas continua sem solução e parece ter caído no esquecimento. Mesmo assim, para o governo Lula o Brasil continua sendo um país de todos.

Pulando fora
Visivelmente nervoso por conta da repercussão do fiasco palaciano, o que lhe rendeu alguns escorregões discursivos, o senador Aloízio Mercadante (PT-SP), líder do governo no Senado, disse, ao responder sobre a vergonhosa reforma ministerial, que o assunto cabia ao Presidente da República, eleito legitimamente com pouco mais de 53 milhões de votos. Inicialmente, não cabe ressuscitar a legitimidade da eleição de Lula, mas lembrar que os mesmos 53 milhões certamente não repetiriam o fato diante do que experimentaram nos últimos dois anos. Por outro lado, Mercadante não pode querer se desvencilhar da imagem caótica do governo Lula, simplesmente transferindo o problema para o Planalto. Na última quinta-feira, nos corredores do Senado, Aloízio Mercadante era o retrato fiel de quem mandava mais que o próprio Lula. Ao celular, Mercadante dizia ao seu interlocutor que Eunício Oliveira deveria ser transferido para o Ministério das Cidades, por ser um cargo honorífico. Ora, como é que até a semana passada Mercadante decidia a sorte dos ministros, e desde ontem o problema é só do presidente Lula?

A corda e a caçamba
Na era FHC, o casal Rafael Greca e Margarita Sansone era presença constante e animada nas festas da corte. Agora, o Paraná, mais uma vez, terá na dupla Paulo Bernardo e Gleisi Hoffman sua mais honrosa contribuição às frivolidades do reino de Dom Lulla I. E como ninguém é de ferro, na Itaipu Binacional, onde a mulher do novo ministro do Planejamento responde por uma diretoria, muitos já batizaram a dupla de casal Hanna Barbera: Urtigão e a Barbie da Fronteira.

Socorro, um dicionário!
Quem ainda tinha dúvidas se o deputado João Paulo Cunha (PT-SP) freqüentou a faculdade com afinco, em Osasco, na Grande São Paulo, enquanto permanecia no parlamento em Brasília, pôde dirimir todas elas no dia de ontem. Ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha fez questão de comparecer ao plenário da Casa para cumprimentar o deputado Professor Luizinho, que nesta terça-feira deixou a função de líder do governo. Diante do microfone, João Paulo disse: eu me senti meio obrigado de estar aqui para trazer minha testemunha... Deputado, o certo é trazer meu testemunho. A não ser que o Professor Luizinho tenha cometido algum deslize, cuja gravidade exija a presença de uma testemunha. Do contrário, vale o conselho.

Ficou pior
A relação entre as Farc e o PT, que foi objeto de uma acalorada discussão na Comissão de Controle de Atividades de Inteligência, no Senado, parece ter arrefecido apenas alguns dias, pelo menos no âmbito da política. Como qualquer ação terrorista preocupa, de maneira considerável, os habitantes da terra do Tio Sam, o imbróglio mereceu espaço no tablóide The Wall Street Journal, espécie de bíblia diária dos aficionados pelos números do mercado financeiro do planeta. No artigo, o jornal cita o seqüestro e morte da filha do ex-presidente do Paraguai, Raul Cubas, lembrando que as Farc podem estar envolvidas no caso. E mais: o Wall Street Journal citou textualmente a presença das Farc na região sul do Brasil, onde, aproveitando a frágil vigilância existente na chamada tríplice fronteira, os narco-guerrilheiros colombianos agem tranqüilamente. Mesmo assim, o general Jorge Armando Félix, responsável pela Segurança Institucional da Presidência da República, e o delegado Mauro Marcelo de Lima e Silva, diretor-geral da Abin, continuam afirmando que as Farc são diuturnamente monitoradas.

Unidos por uma causa
Na viagem que faz à China, o governador Roberto Requião conta com a companhia do ex-presidente do Tribunal de Contas do Paraná, Rafael Iatauro. Nas confortáveis instalações da primeira classe do avião da Lufthansa que levou o trem da alegria paranaense para o outro lado do mundo, Requião e Iatauro tiveram tempo suficiente para conversar sobre um assunto que os colocam em posições antagônicas. Requião, pelos menos da boca para fora, se diz um ferrenho inimigo das casas de bingo. Já no caso de Iatauro, seu genro é um fervoroso defensor do setor. O que pode ter acontecido é que ambos, Requião e Iatauro, estiveram juntos na aula de Física e descobriram que pólos opostos se atraem.

Baderna geral
Leitor de Brasília enviou e-mail à coluna denunciando as péssimas condições do transporte público na capital federal, lembrando que o setor é quase um monopólio da família Canhedo, dona da finada Vasp. Os ônibus, de acordo com informações do leitor, estão em estado deplorável, sendo que motoristas e cobradores mais parecem estar conduzindo veículos de carga animal, tamanha é a brutalidade com que tratam os passageiros. Mas o assunto mais polêmico está na rodoviária de Brasília. Lá, é possível adquirir tudo que passar pela mente diabólica de qualquer cidadão: de vale-transporte falsificado a diploma de faculdade frio, com direito a escolher a escola. E o governador do DF, Joaquim Roriz, finge que não sabe.

Na mosca
Com quase uma semana de antecedência, esta coluna publicou o que o maior jornal do planeta, The New York Times, trouxe na edição de ontem, terça-feira, em seu caderno de negócios. Na última quinta, publicamos nota sobre a indicação de Paul Wolfowitz, secretário de Defesa dos EUA e responsável pela invasão do Iraque, para o Banco Mundial. Na ocasião, lembramos que fato idêntico ocorrera com Paul McNamara, que na década de 60 ocupou o mesmo posto de Wolfowitz e foi indicado para dirigir o Banco Mundial, depois de ter comandado a invasão do Vietnã. O tablóide nova-iorquino trouxe o assunto em matéria assinada pela jornalista Elizabeth Becker, sob o título Para McNamara e Wolfowitz, a guerra e depois o Banco Mundial. Aqui, mesmo com ausência de diploma, publica-se a verdade e resgata-se a história. Ucho.info e você, tudo a ver!

Gutenberg impiedoso
Ontem, o Velho Mundo chacoalhou com as notícias veiculadas durante o dia. Na Inglaterra, os súditos estão em polvorosa com a possibilidade de Camilla Parker-Bowlles se tornar rainha, caso o futuro marido venha a suceder a mãe. No principado de Mônaco, o já octogenário príncipe Rainier fez com que os filhos corressem ao hospital onde está internado, à beira da morte. Os monegascos não estão preocupados com o presente, mas com o futuro. Se o filho, Albert Grimaldi, não assumir o principado, Mônaco deverá, como determina a legislação, ser incorporado ao território francês. Em Roma, a notícia do agravamento da saúde do papa João Paulo II caiu como uma bomba. De acordo com informações do Vaticano, o estado de saúde do número um da Igreja Católica inspira cuidados extremamente sérios. Em outras palavras, no caso de Rainier, não há mal que sempre dure. No do papa, nem bem que nunca acabe. E no de Camilla, é a primeira vez que uma bruxa corre o risco de chegar ao castelo na condição de rainha.

Só um dedinho
Pensando bem, está provado que cachaça de má qualidade redunda em reformas piores ainda.

Ucho Haddad

 

Querendo entender...

O presidente Lula demorou quase sete meses para gerar apenas dois empregos. Por quê? Afinal, perguntar não ofende...

O melhor do esporte brasileiro e internacional com o maior jornalista esportivo do país

Clique na lupa e confira os detalhes dos mais recentes e polêmicos escândalos que abalaram as estruturas políticas do país

Destaques

e-ditorial: "A Maria que nunca pede socorro" - por Ucho Haddad

e-xclusiva: "Barrados no baile - o direito de voto do preso"

Resenha: "A política na bacia das almas" - por Ucho Haddad

Q.I.: "A eminência parda do cardeal" - por Pedro Luís de Campos Vergueiro

Tribuna Livre: "Fundo Internacional de Cabides" - por Ralph J. Hofmann

Prateleira Eletrônica: "As 100 Melhores Crônicas de Humor" - por Sandro Villar

Boca Maldita: Alguns dos escândalos que marcaram a política nacional

Túnel do Tempo

A conta é nossa
Depois de escândalos, xingamentos entre ministros, críticas de todos os lados e uma paralisia do governo, o presidente Lula voltou a chamar o marqueteiro Duda Mendonça, para socorrê-lo no incêndio administrativo. Duda Mendonça terá R$ 8 milhões para gastar em uma campanha publicitária que enfatizará os quinze primeiros meses da era Lula. Sob o mote O trabalho sério já começa a dar resultado , a campanha vai tentar convencer o povo que tudo vai muito bem e que Lula continua aquele velho e conhecido Sassá Mutema . Ou seja, um salvador da pátria. (23/03/04)

Boca Maldita

Na página Boca Maldita você encontra a pizza meia Zé Dirceu - meia Waldomiro, em versão para impressão; a lista dos senadores e deputados que votaram contra o salário-mínimo de R$ 275; além de detalhes da agenda de Waldomiro Diniz e o primeiro depoimento do juiz João Carlos da Rocha Mattos.

Dica do Ucho

Paris recebe as Áfricas do Brasil - Exposição de 50 fotografias de Catherine Krulik no Centro Cultural Clichy-sous-Bois apresenta nossas festas, nossos rituais e tradição. Somente na programação oficial do Ano do Brasil na França, Krulik tem destaque em três grandes mostras diferentes, com trabalhos que mostram sua habilidade e arte com as imagens. Além dessa, já está com 94 painéis gigantes no Futuroscope e agora, na segunda quinzena de março, dia 17, na prestigiada área arquitetônica Cité de la Musique.

“Brasil, o país dos Carnavais”

(www.krulik.com.br/futuroscope)

“Les Afriques du Brésil”

(www.krulik.com.br/clichy)

“Cité de la Musique”

(www.krulik.com.br/cite)

Editora Senac São Paulo

A costura do invisível - Em 17 de junho de 2004, no maior evento de moda da América Latina – o São Paulo Fashion Week – e diante de uma platéia de 1.200 pessoas, o estilista Jum Nakao realizou uma performance em que, ao final do desfile, as modelos rasgaram elaboradíssimas roupas de papel vegetal construídas em mais de 700 horas de trabalho, que envolveram cerca de 150 profissionais. Todas as etapas desse processo foram documentadas em fotos, vídeos e fotogramas, dando origem ao livro e DVD A costura do invisível, lançados pela Editora Senac São Paulo.

www.editorasenacsp.com.br

 

 

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