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ano 4 - número 843 - terça-feira, 22 de março de 2005
Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício!

Somos o que fazemos, principalmente o que fazemos para mudar o que somos.

Eduardo Galeano

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Tostão furado
O procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, determinou o arquivamento das quatro ações contra o presidente Lula, que tinham como base as declarações sobre a não divulgação de possíveis casos de corrupção durante as privatizações ocorridas na era FHC. Entendendo que Lula não quis dizer o que disse durante visita ao Espírito Santo, em fevereiro passado, Cláudio Fonteles reforça sua tese afirmando que a motivação nada traz de criminoso. Não se sabe se a atitude do procurador-geral foi para salvar Luiz Inácio Lula da Silva ou para mostrar à opinião pública que as palavras do Presidente da República não merecem crédito algum.

Tudo pelo trono
Ciente de que sua popularidade já não flana nas alturas, o presidente Lula está apostando tudo e mais um pouco em seu remendo ministerial, no afã de neutralizar seus possíveis adversários políticos e garantir a reeleição em 2006. Como a ala governista do PMDB escancarou vergonhosamente o partido ao Palácio do Planalto, Lula quer, a qualquer preço, incluir os peemedebistas em seus projetos políticos futuros. Para pagar o servilismo barato do senador José Sarney, Lula tem o compromisso de arrumar uma vaga na Esplanada dos Ministérios para Roseana Sarney, que, por sugestão presidencial, poderia entrar na cota do PMDB. Como a hipótese foi descartada de imediato pela maioria, o encontro de ontem com o deputado Michel Temer serviu para que o presidente Lula tentasse convencer o comandante do PMDB a aceitar o ministro Ciro Gomes em suas hostes políticas. Com a promessa de que Ciro poderia ser seu vice em 2006. E se cair no conto do presidente Lula, é porque inocência é o que não falta dentro do PMDB.

O cabra afinou
Tamanha é a confusão que se instalou na reforma ministerial, que o anúncio que deveria ser feito hoje deve, mais uma vez, ser adiado. O presidente Lula continua enfrentando problemas para finalizar o remendo que promoverá na Esplanada dos Ministérios, que, além de ter estagnado o país, tem deixado os políticos impacientes. Ontem, no meio da tarde, o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), deu um ultimato a Lula. Durante discurso na Assembléia Legislativa do Paraná, Severino exigiu que o deputado Ciro Nogueira (PP-PI), seu afilhado político, seja indicado ainda hoje para o Ministério das Comunicações. Do contrário, ameaçou o presidente da Câmara, o PP passa para a oposição. À noite, mostrando não ser tão cabra macho assim, Severino disse ao presidente Lula que suas declarações, gravadas pela imprensa, foram distorcidas. Os políticos precisam acabar com essa mania de transferir à imprensa a responsabilidade pelas besteiras que disparam. Quem não tem aquilo roxo, como disse certa vez Fernando Collor, que não se estabeleça.

Hábito comum
O país foi tomado de surpresa com as declarações de Severino Cavalcanti, ao ser questionado sobre o escandaloso nepotismo que vem praticando desde que assumiu a presidência da Câmara dos Deputados. O parlamentar pernambucano justificou a contratação de parentes, alegando que todos têm curso superior e estão, na verdade, fazendo um favor à nação. O nepotismo jamais foi novidade na política brasileira, sendo que Severino Cavalcanti é um antigo adepto da prática condenada pela maioria da população. As indicações do passado só não vieram a público porque o deputado pernambucano estava fora do raio de ação dos holofotes. Mesmo que seja mais rumorosos protestos, o assunto não causa surpresa alguma, principalmente em se tratando de Severino.

Nababo vermelho
Enquanto o ministro Antonio Palocci Filho (Fazenda) insiste na tese da falência da Varig, Miguel Rossetto, ministro do Desenvolvimento Agrário, se refestela nos vôos da companhia aérea. Ontem, um vôo que saiu de Porto Alegre com destino a Brasília transportou, entre tantos passageiros, o ministro Rossetto. Longe do perfil populista que exibe nos palanques em períodos eleitorais, Miguel Rossetto se esparramou na primeira classe da aeronave. O mais interessante é que o ministro Gilberto Gil, que até então fez muito mais pela Cultura do que Rossetto pelo desenvolvimento agrário, viaja, pelo menos dentro do país, como um reles mortal. Resta saber se a mordomia do ministro Rossetto vai para a conta do contribuinte ou não passou de uma cortesia em função do cargo. Uma coisa ou outra, o fato é que o assunto é um escândalo, mesmo que de pequenas proporções seja.

Eles voltaram
Ainda sentado sobre o caso da morte de Celso Daniel, como forma de evitar que o assunto reacenda em ano pré-eleitoral – tem tudo para voltar com força – o PT acabou descuidando do imbróglio Waldomiro Diniz. Na 7ª Vara Federal de Brasília, onde tramita um processo contra o ex-assessor do ministro José Dirceu, o antigo colaborador do ministro Palocci Filho, Rogério Buratti, foi incluído na ação na condição de réu. Como se não bastasse o tamanho da confusão, Buratti está no olho do furacão de outra investigação, que por conta de inexplicáveis milagres acabou caindo no esquecimento. O ex-secretário de Palocci está envolvido na máfia do lixo, que atuava de maneira escandalosa na região de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. A sorte do brasileiro é que o PT sempre pregou a ética e a transparência.

Zebra no tucanato
Com o apoio da Executiva Nacional do PSDB, onde é vice-presidente, o senador Álvaro Dias era tido como favorito na disputa pela presidência do partido no Paraná, cargo que já ocupou no passado. Seu adversário, o deputado estadual Valdir Rossoni (ex-integrante do PDS, PRN, PTB e PFL, além de ex-líder de Jaime Lerner) contou com o apoio inesperado do prefeito de Curitiba, o tucano Beto Richa, e do presidente da Assembléia Legislativa do Paraná, deputado Hermas Brandão. Líder da oposição a Roberto Requião, Rossoni conseguiu abduzir até os votos dos comandados pelo governador paranaense. Presidente do Teatro Guairá, Nitis Jacon deixou o trabalho e foi até o Hotel Rayon, local da convenção tucana, para votar no algoz político de seu patrão temporário. Encerrados os arranjos matinais, Rossoni derrotou, por trinta votos a quinze, o senador Álvaro Dias.

Quem quer dinheiro?
Ainda o imbróglio tucano... Em primeiro lugar nas pesquisas para assumir o Palácio Iguaçu em 2006, Álvaro Dias deve sua derrota a seu fidagal inimigo, o governador Roberto Requião. Da China, onde capitaneia uma bizarra e numerosa comitiva, Requião fez questão de comandar, por telefone, a derrota do arquiinimigo Álvaro Dias. Há quem garanta que, em alusão ao Xique-Xique imputado ao pernambucano Severino Cavalcanti, o governador do Paraná já está sendo chamado de Roberto Cheque-Cheque. Chega a ser difícil de acreditar em tamanha proeza, principalmente sendo o protagonista um amante contumaz de vinhos caros, cujas rolhas só saem do lugar quando algum perdulário assume a responsabilidade pelo pagamento.

Curto-circuito
Boa parte dos deputados federais promete para hoje a instalação da CPI do Setor Elétrico. Mesmo que o procurador Cláudio Fonteles o tenha livrado dos constrangimentos jurídicos relacionados ao assunto, o presidente Lula será o alvo principal da comissão que vai investigar possíveis casos de corrupção na privatização de empresas do setor elétrico, durante o governo Fernando Henrique Cardoso. A idéia de se criar uma comissão surgiu dos conhecidos tropeços verborrágicos do presidente Lula, sendo o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, indicou o deputado Wladimir Costa (PMDB-PA) como relator da CPI. É preciso lembrar que Wladimir Costa não tem papas na língua, e os tucanos, garantem que não têm porque temer. O que leva a crer que ou são todos inocentes, ou o serviço foi bem feito.

Campanha antecipada
Pode ser classificada de criminosa a maneira como o Palácio do Planalto entrou em campo para barrar os possíveis adversários do presidente Lula em 2006. A primeira vítima do maquivelismo palaciano foi o prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, que caiu na armadilha do ministro da Saúde, Humberto Costa. Agora, para neutralizar as chances do governador Geraldo Alckmin, o Planalto acionou sua tropa de choque na Câmara dos Deputados. Uma comitiva da Comissão de Direitos Humanos e Minorias desembarca hoje em São Paulo, para averiguar o que o governo paulista está fazendo para interromper a seqüência de rebeliões na Febem. Como se coincidência fosse, a comitiva é formada pelos deputados Iriny Lopes (PT-ES), Chico Alencar (PT-RJ), Geraldo Thadeu (PPS-MG) e Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP). Não se trata de defender Geraldo Alckmin, que deve ser responsabilizado de todas as maneiras, mas fazer uso político de uma situação tão caótica, cujo culpado maior é o Estado como um todo, é algo tão irresponsavelmente desumano quanto o que ocorre atrás das muralhas das unidades da instituição.

Estranho no ninho
Ainda a comitiva... O deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), senhor de uma arrogância sem precedentes, não tem qualificação para integrar a Comissão de Direitos Humanos. Foi ele o responsável pelo abafamento do caso da morte do prefeito Celso Daniel, brutalmente assassinado por uma quadrilha que agiu a serviço de um esquema de corrupção instalado na prefeitura de Santo André. Quem, por algum motivo qualquer, ainda nutre dúvidas sobre o assunto, basta clicar aqui e conferir os principais trechos das escutas telefônicas do caso. De mais a mais, Greenhalgh, para quem não se recorda, foi um ferrenho defensor, de fato e de direito, de alguns dos seqüestradores do empresário Abílio Diniz. Na condição de advogado, o senhor Greenhalgh tem o direito de defender quem quiser, mas para integrar a Comissão de Direitos Humanos é preciso, antes de tudo, um rápido exame de consciência.

Fora do tom
É verdade que o Brasil parou em função da tão prometida reforma ministerial, mas muitos assuntos acabaram caindo no esquecimento, como habitualmente acontece. Em regimes democráticos, todos têm o direito ao livre arbítrio, especialmente em relação à ideologia política, mas símbolos nacionais ou marcas que façam qualquer tipo de alusão a uma nação não podem, em hipótese alguma, ser tendenciosamente descaracterizados para satisfazer a corrente política do momento. Criada para divulgar o turismo brasileiro no planeta, a chamada Marca Brasil recebeu uma irresponsável pitada de vermelho, que não pode ser considerada, nem mesmo por daltônicos, como uma das cores oficiais do país. E como, até onde se sabe, a tal marca não irá divulgar o turismo cubano, melhor seria que as autoridades se mexessem para mudar a palhaçada cromático-ideológica.

Na moita
Advogado criminalista e político conhecido, um deputado estadual paulista está enfrentando um caso sui generis na família. Um dos irmãos do parlamentar, conhecido por sua pseudovalentia, decidiu, dias atrás, acabar com a vida de um desafeto, que no passado teria lançado dúvidas sobre sua masculinidade. Dias antes de descarregar sua arma contra o fofoqueiro, o assassino telefonou para o irmão-deputado querendo saber quanto tempo passaria atrás das grades. Além de não ter evitado o crime, o deputado calou-se depois do fato. E o irmão-assassino, claro, desapareceu.

Piada de salão
Normalmente, as segundas-feiras são enfadonhas em virtude do ócio típico dos finais de semana, mas ontem tudo foi diferente. Não bastasse o já famoso destempero discursivo de Severino Cavalcanti, a piada do dia ficou a cargo de Flávio Maluf, um dos filhos do ex-prefeito Paulo Maluf. Em depoimento à Justiça paulista, onde responde com outros membros da família por crime de lavagem de dinheiro, Flávio Maluf admitiu que movimentou contas bancárias no exterior, mas alegou que foi para fins filantrópicos. Assim, fica provado que mesmo sendo raros os casos em que a hereditariedade mitômana se transforma em verve humorística da pior qualidade, eles acontecem até nas piores famílias.

As voltas da vida
Pensando bem, quem, em reforma ministerial, não tem cão, nomeia os inimigos do passado.

Ucho Haddad

 

Querendo entender...

O rinheiro e marqueteiro-contraventor Duda Mendonça anda desaparecido. Por quê? Afinal, perguntar não ofende...

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Destaques

e-ditorial: "A Maria que nunca pede socorro" - por Ucho Haddad

e-xclusiva: "Barrados no baile - o direito de voto do preso"

Resenha: "A política na bacia das almas" - por Ucho Haddad

Q.I.: "A eminência parda do cardeal" - por Pedro Luís de Campos Vergueiro

Tribuna Livre: "Fundo Internacional de Cabides" - por Ralph J. Hofmann

Prateleira Eletrônica: "As 100 Melhores Crônicas de Humor" - por Sandro Villar

Boca Maldita: Alguns dos escândalos que marcaram a política nacional

Túnel do Tempo

Vermelhidão mitômanal
Diante da polêmica causada por Rogério Buratti – se envolveu no caso GTech -, o ministro Antonio Palocci Filho (Fazenda) apostou no lado bonachão para posar de bom moço. Palocci disse que não mantém contato com Buratti desde 1994, quando este foi escorraçado da prefeitura de Ribeirão Preto, acusado de corrupção. Na verdade, Rogério Buratti deixou a equipe municipal de Ribeirão Preto para assumir um cargo de destaque na empresa Leão e Leão, principal financiadora da campanha de Antonio Palocci à prefeitura daquela cidade. Antes disso, em 1987, Buratti foi assessor parlamentar de José Dirceu, então deputado estadual por São Paulo. Na seqüência, quando José Dirceu foi candidato ao governo de São Paulo, cresceu o relacionamento entre Waldomiro Diniz (caixa da campanha de Dirceu) e Rogério Buratti, ainda um alto executivo da Leão e Leão. (22/03/04)

Boca Maldita

Na página Boca Maldita você encontra a pizza meia Zé Dirceu - meia Waldomiro, em versão para impressão; a lista dos senadores e deputados que votaram contra o salário-mínimo de R$ 275; além de detalhes da agenda de Waldomiro Diniz e o primeiro depoimento do juiz João Carlos da Rocha Mattos.

Dica do Ucho

Paris recebe as Áfricas do Brasil - Exposição de 50 fotografias de Catherine Krulik no Centro Cultural Clichy-sous-Bois apresenta nossas festas, nossos rituais e tradição. Somente na programação oficial do Ano do Brasil na França, Krulik tem destaque em três grandes mostras diferentes, com trabalhos que mostram sua habilidade e arte com as imagens. Além dessa, já está com 94 painéis gigantes no Futuroscope e agora, na segunda quinzena de março, dia 17, na prestigiada área arquitetônica Cité de la Musique.

“Brasil, o país dos Carnavais”

(www.krulik.com.br/futuroscope)

“Les Afriques du Brésil”

(www.krulik.com.br/clichy)

“Cité de la Musique”

(www.krulik.com.br/cite)

Editora Senac São Paulo

A costura do invisível - Em 17 de junho de 2004, no maior evento de moda da América Latina – o São Paulo Fashion Week – e diante de uma platéia de 1.200 pessoas, o estilista Jum Nakao realizou uma performance em que, ao final do desfile, as modelos rasgaram elaboradíssimas roupas de papel vegetal construídas em mais de 700 horas de trabalho, que envolveram cerca de 150 profissionais. Todas as etapas desse processo foram documentadas em fotos, vídeos e fotogramas, dando origem ao livro e DVD A costura do invisível, lançados pela Editora Senac São Paulo.

www.editorasenacsp.com.br

 

 

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