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ano 7 - número 1492
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício
"É mais trabalhoso conduzir os homens pela persuasão que pela força. "
Paul Claudel
 
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Linha de tiro
A sorte de Renan Calheiros, presidente licenciado do Senado, será decidida, mais uma vez, na Comissão de Constituição e Justiça nesta terça-feira. Mesmo que o pedido de cassação do mandato do alagoano seja aprovado na CCJ, cassá-lo no plenário não será tarefa das mais fáceis. Como antecipou a coluna, com a costumeira antecedência, a prorrogação da CPMF pode garantir a permanência de Renan no Senado pelos próximos anos. Mesmo que a representação aprovada no Conselho de Ética tenha levado as rubricas do PSDB e do Democratas, as duas legendas ainda não decidiram como votarão na próxima quinta-feira, quando o assunto vai a votação no Plenário da Casa. Renan Calheiros sabe muito mais do que alguns poderosos senadores gostariam.

Marcha a ré
Depois de uma semana de atropelos discursivos, ocasião em que chamou de democracia a ditadura imposta por Hugo Chávez na vizinha Venezuela, o presidente Luiz Inácio decidiu cancelar a viagem que faria na próxima quinta-feira, 22, à ilha de Cuba. Na verdade, o cancelamento da viagem foi uma decisão tomada pela assessoria palaciana, que previu dividendos políticos nada satisfatórios com a visita a Fidel Castro. Especialmente porque Lula vem dando apoio excessivo ao presidente venezuelano, que a reboque das discussões sobre um possível terceiro mandato provocaria uma revolução nos partidos de oposição. O que certamente comprometeria de sobremaneira a prorrogação da CPMF. E mais: o anúncio de que Chávez investirá em energia nuclear complicou a situação do presidente brasileiro.

Entrou areia
Outro fator que contribuiu para o cancelamento da viagem presidencial a Cuba foi a votação do processo de cassação de Renan Calheiros, que acontece no Plenário do Senado no dia 22, quinta-feira. Deixar o senador alagoano na mão pode ser um tiro no pé do governo Lula da Silva, uma vez que o presidente licenciado do Senado, tempos atrás, desembarcou no Planalto com um punhado de recados. Muitos deles indigestos. No caso de Renan Calheiros perder o mandato – o que é pouco provável – o alagoano vai esperar alguns meses para dar o troco. Calheiros vive uma fase “zen”, em termos políticos, mas em Alagoas as coisas são decididas um pouco mais tarde. O melhor exemplo foi o fim trágico de Paulo César Farias, o caixa-forte de Fernando Collor de Mello.

Zé ninguém
Ainda Fernando Collor... Longe daquele glamour que predominou a “corte collorida”, o ex- presidente Fernando Collor ainda sofre as conseqüências do impeachment. Mesmo que as estripulias ocorridas em seu governo sejam café pequeno se comparadas à onda de corrupção que marcou o primeiro governo Lula, Collor ainda é visto pelo povo com olhos de desconfiança. Sem a esbelta silhueta que ostentava no início dos anos 90, Fernando Collor, agora senador pelo PTB, foi tratado, na última sexta-feira, como o mais comum dos comuns em uma loja de artigos esportivos instalada no shopping Pier 21, em Brasília. Às 21h30, o ex-presidente deixou a loja com um par de tênis na sacola, sem ser notado pelos muitos freqüentadores do local. Para quem era uma ode à vaidade, ser ignorado deve ser uma espécie de amostra grátis do calvário. (Foto: Geraldo Freire)

Vida mansa
O presidente-metalúrgico Lula da Silva não teve compromissos oficiais desde a última quinta-feira, acompanhando o feriadão nas repartições públicas brasileiras. Lula ficou com a família na Granja do Torto e com a agenda livre, conversou com os aliados sobre a situação do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que deve renunciar à presidência do Senado até quarta-feira, um dia antes da votação do processo por decoro parlamentar relatado pelo senador Jefferson Peres (PDT-AM), que pede a cassação do mandato. Com a renúncia, o presidente em exercício do Senado, senador Tião Viana (PT-AC), convoca a eleição para o cargo para a próxima semana. O senador Garibaldi Alves (PMDB-RN) poderá ser o candidato único, a partir de um acordo entre todos os partidos. O Senado estaria definitivamente pacificado com esta composição e abrindo caminho para a votação da prorrogação da CPMF, prevista para o início de dezembro.

Operação B
A base do governo adotou uma nova tática para convencer os senadores a votar a favor da prorrogação do imposto provisório até dezembro de 2011. O senador Renato Casagrande (PSB-ES) comparou a resistência de colegas da situação a um fio desencapado  e por isso torna-se necessária uma conversa individual que será coordenada pelo líder do governo, senador Romero Jucá (PMDB-RR).  A idéia é resolver problemas pontuais e regionais, pois há um descontentamento pela forma como o governo trata os partidos aliados.

Força extra
O “capitão” ou o eletricista, como prefere Casagrande, decidiu também retomar as negociações com os tucanos, pois o governo está em desvantagem no Plenário. Senadores do PDT e PTB, que integram a base, estão divididos. A rebeldia se ampliou especialmente junto aos petebistas, depois que o líder senador Epitácio Cafeteira (MA) divulgou nota se solidarizando com Mozarildo Cavalcanti (RR), afastado sem nenhuma conversa pela líder do PT, senadora Ideli Salvatti (SC), da Comissão de Constituição e Justiça na semana passada.

Fogo no dinheiro
O governo “trata muito bem” o dinheiro nosso de cada dia, todos sabem. Mas não custa relacionar algumas compras estranhas que foram autorizadas em pleno feriadão da Proclamação da República. O Superior Tribunal de Justiça, por exemplo, autorizou a compra de agendas e calendários de mesas para os servidores. O mimo vai custar cada um R$ 10,68, totalizando R$ 67,2 mil. O “Contas Abertas” informa que o STJ também vai comprar "protetores de pé" no valor de R$ 1,8 mil. A compra deve servir para o atendimento médico do tribunal. Na Câmara dos Deputados, foi autorizada a compra de 1,5 milhão de copinhos de café descartáveis. O preço: R$ 47,7 mil. O Senado Federal empenhou serviços de confeitaria no valor de R$ 6,7 mil. Os nossos representantes estão, definitivamente, sendo bem-tratados.

Lupa na mão
As administradoras de cartões de crédito devem reforçar o lobby no Senado Federal nesta semana, com a apresentação de mais dois projetos que enquadra os negócios de 132 milhões de cartões das instituições financeiras. O primeiro projeto regula a atividade, pois os cartões estão livres de fiscalização, e o segundo unifica o sistema de máquinas para baratear os custos dos lojistas, que repassam os valores para as mercadorias. As duas propostas do senador Adelmir Santana (DEM-DF) se completa com uma outra, que já passou pela Comissão de Assuntos Econômicos, que trata da redução do valor das taxas de adesão do cartão de crédito.

Assalto anunciado
As taxas de 4,5% cobradas dos lojistas dificultam a popularização do chamado "dinheiro de plástico", além de encarecer o preço final dos produtos. Nos Estados Unidos, por exemplo, essa taxa é de apenas 2%. Segundo a Boanerges Consultoria, entre as principais lojas de departamentos o plástico responde pela maioria dos negócios - 75% na C&A, 73% na Riachuelo e 71% na Renner. Trata-se de um mercado multibilionário, que beneficia especialmente a Visa e a Mastercard, que detêm 80% do mercado, informa pesquisa encomendada pelo Senado à Fundação Getúlio Vargas. O faturamento das indústrias de cartões de crédito chegou a R$ 26,9 bilhões.

Chamem o Aurélio!
De hoje até a próxima sexta-feira, 23, a Câmara dos Deputados será palco de um simpósio sobre a Amazônia. Um dos temas principais do encontro será a inclusão social através de todos os brasileiros, a começar pelos amazônidas. Para divulgar o encontro, a Câmara fincou cartazes ao redor da rodoviária de Brasília, localizada no cruzamento das duas mais importantes vias da capital dos brasileiros. Em um dos cartazes, a mensagem em é a seguinte: “Dizer sim a Amazônia é dizer sim ao futuro”. Temas relacionados à Amazônia são extremamente importantes, mas a língua pátria, escrita de forma correta, também garante o futuro de cada um dos brasileiros. Por onde anda a crase que deveria estar no artigo que precede a palavra Amazônia? “O correto é dizer sim à Amazônia”. É a aquela famosa fome gramatical.

Tábua de salvação
Deve chegar ainda nesta semana na escrivaninha do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, a proposta do Instituto Butantan para fornecer cinco milhões de doses anuais da vacina contra a dengue, a partir de 2009. Em troca da vacina contra quatro tipos da doença que virou uma epidemia nacional, o governo poderia financiar a aquisição de equipamentos no valor de R$ 20 milhões. O Butantan, reconhecido mundialmente através de suas pesquisas, já domina a tecnologia para desenvolvimento da vacina, feito em parceria com cientistas norte-americanos. Se o ministério topar o desafio, os testes poderiam ser feitos já no ano que vem em São Paulo. O próprio governo federal informou que 440 mil pessoas contraíram entre janeiro e julho a forma clássica da dengue. Foram anotadas 98 mortes.

Roendo a corda
O ministro da Previdência Social, Luiz Marinho, começou a jogar pesado com os servidores. Depois que abandonou o projeto de concorrer à prefeitura de São Bernardo do Campo, Marinho decidiu se dedicar com mais afinco ao ministério, e por isso proibiu férias e licenças em janeiro e fevereiro. O motivo não foi explicado, mas nos corredores do ministério comenta-se que a decisão envolve a proposta de reforma do sistema previdenciário do regime geral. E durante três dias, de quarta a sexta-feira, o ministério apresenta o Sistema Integrado de Informações Previdenciárias (Siprev), que auxilia a gestão de entidades previdenciárias dos servidores dos estados e municípios. O Siprev, que poderá ser aplicado em dezembro, tem nove módulos e o último deles refere-se à concessão de benefícios.

São Tomé
A adesão da Venezuela ao Mercosul volta à agenda política da Câmara dos Deputados nesta semana com o projeto de decreto legislativo 387/2007, que sujeita à aprovação do Congresso Nacional quaisquer atos ou ajustes complementares que alterem o Protocolo de Adesão ao Mercosul. O tema é complexo e polêmico. Antes de ser votado na Comissão de Constituição e Justiça na quarta-feira, será feita uma audiência pública amanhã com a presença do embaixador venezuelano Samuel Pinheiro Guimarães. O PPS, Democratas e os tucanos prometeram não obstruir a votação na CCJ. É ver para crer.

Discurso zero
Pensando bem, o lado positivo do feriado prolongado, além da preguiça, é que o presidente fica sem falar.

Óleo de peroba
(20/11/06) - Que na política sobram faces lenhosas, todos sabem, mas ultimamente os cupins da política já não sabem por onde começar o banquete. Não faz muito tempo, o senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) disse, da tribuna do Senado, que Lula era um idiota por não saber do escândalo do mensalão. Tempos depois, o mesmo Virgílio disse que daria um soco no presidente por conta dos escândalos de corrupção. No último sábado, ao retornar da cidade de Três Lagoas (MS) – cidade onde ocorreu o velório do senador Ramez Tebet, Arthur Virgílio pegou carona no Aerolula. E ambos – o senador e o presidente – travaram uma animada conversa, como se um não tivesse ofendido o outro. Senador, tudo na vida é passível de perda. Menos a coerência.

Ucho Haddad com Gilmar Corrêa e Thaís Margalho

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