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ano 6 - número 1439
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício
"Nunca conseguimos fazer direito enquanto não paramos de pensar em como fazê-lo."
William Hazlitt
 
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O UCHO PERGUNTA

O que deve acontecer com Renan Calheiros?

Perda do mandato

Afastamento da presidência do Senado

Nada

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Seguindo a cartilha
Durante o 3º Congresso do PT, o presidente-metalúrgico Lula da Silva, estrela maior do evento, disse que o partido deve indicar um candidato à sua sucessão, mesmo que o escolhido não engorsse a fileira dos barbudinhos e outros nem tanto. No contraponto, uma ala de petistas influentes garante que o partido terá candidato próprio. Considerando que o PT não tem nenhum nome à altura para disputar a corrida presidencial em 2010, um terceiro mandato para Lula da Silva caminha na direção da possibilidade.

Modelo chavista
Outro detalhe que merece consideração é a fala do presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini, que durante o recente encontro petista afirmou que o partido busca um Congresso unicameral, o que exigiria a extinção do Senado, mandando para casa oitenta e um senadores. Trata-se de um discurso totalitarista, com um viés democrático enganador. A proposta de Ricardo Berzoini é um eco do discurso de Hugo Chávez, o pára-quedista que quer transformar a Venezuela em uma versão mais ampla e mais rica de Cuba. E mais: Ricardo Berzoini, quando ministro da Previdência do presidente Lula, mandou à fila do recadastramento milhares de velhinhos.

Rambo tupiniquim
Ao que parece, a presente semana está sendo utilizada para visita às tropas no front. O presidente George Bush, o baby, desembarcou no Iraque para um rápido encontro com os soldados ianques, que nos últimos anos transformaram as terras banhadas pelos rios Tigre e Eufrates em um verdadeiro caldeirão da discórdia. E o fez em trajes civis. Já o ministro Nelson Jobim, da Defesa, desfilou pelo Haiti fantasiado de general. Criado em Santa Maria, cidade gaúcha que abriga uma guarnição militar, Jobim deve nutrir alguma frustração em relação às fardas. E mais: a secretária Condoleezza Rice, dos EUA, nem de longe precisa de uma carnavalesca fantasia militar para mostrar que é poderosa.

Pulando do barco
A possibilidade de a Justiça considerar como crime a decisão da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e da Infraero de liberar a pista principal do aeroporto de Congonhas e mantê-la em funcionamento em dias de chuva não só explica o maior acidente aéreo do País, mas mostra que o Palácio do Planalto tinha motivos para deixar para a TAM a responsabilidade pela tragédia. Na verdade, o que os freqüentadores do Palácio do Planalto tentaram foi intimidar a TAM, colocando uma espada no pescoço da diretoria da empresa criada pelo saudoso comandante Rolim Adolfo Amaro. É fato que a verdade em algum momento sempre aparece, mas para o desespero palaciano, ela surgiu rápido demais.

Sob medida
Diferentemente do trabalho realizado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáutico (Cenipa), que tenta apurar as causas do acidente com o Airbus A320 da TAM, a CPI do Apagão Aéreo da Câmara já escalou os culpados pela tragédia. Visivelmente manipulados pelo Palácio do Planalto, o primeiro vice-presidente e o relator, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e Marco Maia (PT-RS), respectivamente, ouviram os últimos vinte e dois minutos de gravações da caixa-preta do Airbus e concluíram que não houve nenhum tipo de falha humana. Como ao governo Lula não interessa assumir a culpa, o que acarretaria um estrago político enorme e indenizações milionárias, o melhor mesmo é empurrar o problema para cima da TAM. Não fosse verdade, assessores do presidente Lula jamais teriam intimidado os dirigentes da companhia criada pelo saudoso Rolim Adolfo Amaro. E mais: colocar a TAM em má situação faz parte da estratégia palaciana para beneficiar a Gol e a Varig.

Apenas para lembrar
Em depoimento à Polícia Civil do DF, o advogado Bruno de Miranda Lins, ex-genro do empresário Luiz Carlos Garcia Coelho, disse que o mais novo personagem no calvário de Renan Calheiros mantinha contas nos bancos Credit Suisse e Commercial Bank of New York. Políticos com contas bancárias no exterior não é novidade. As autoridades federais têm conhecimento da entrada no País de agentes das principais instituições financeiras, e nada fazem para impedir a conhecida e contumaz evasão de divisas. O Commercial Bank, por exemplo, foi alvo de uma confusão envolvendo o ex-presidente da Força Sindical e ex-deputado federal Luís Antonio de Medeiros e seu então assessor, Wagner Chinchetto. Em tempo: o Commercial Bank era a versão ianque do Banco Cidade, instituição que pertenceu à família Safdié.

Linha de tiro
O senador Renan Calheiros (PMDB-AL) voltou a atacar o Grupo Abril, um dia antes da votação do processo contra ele por quebra de decoro parlamentar no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar. Ele até projetou uma matéria da Bandeirantes para ilustrar seu discurso que pouco ajudou na sua defesa. A votação aberta deverá recomendar a cassação do senador que, se for absolvido no Plenário do Senado, terá que responder a mais outras três representações. Ontem, o relator do caso da Schincariol, senador João Pedro (PT-AM) recebeu a defesa de Calheiros que é acusado de superfaturar a venda de uma empresa de refrigerante como forma de ser ressarcido por facilitar o pagamento de impostos da cervejaria.

Corda bamba
A situação no Senado parece um velho trocadilho popular, onde a vaca não reconhece bezerro. O senador Mão Santa (PMDB-PI) ilustrou bem o clima ao informar que "ninguém é líder de ninguém", e cada senador irá votar no Plenário do Senado de acordo com interesses próprios. Se a cassação for confirmada no Conselho de Ética, conforme indicaram os relatores Renato Casagrande (PSB-ES) e Marisa Serrano (PSDB-MS), o processo de Renan Calheiros precisa passar pela Comissão de Constituição e Justiça para ir à Plenário, cuja votação poderá acontecer daqui a uma semana. A CCJ deverá apresentar um parecer se todos os ritos regimentais foram cumpridos. Há quem prevê que a tropa de choque de Calheiros vá criar problemas em função da votação em aberto. Muitos senadores, incluindo os do PT, argumentam que a votação no Conselho deveria ser secreta para cumprir a Constituição.

Alça de mira
Um dos poucos senadores a declarar abertamente o voto no Conselho de Ética, Demóstenes Torres, foi incisivo: "Espero que o Senado vote pela cassação, por mais amizade que tenham". Visivelmente irritado, o senador goiano pelo Democratas garante que os oito itens, relatados pelos colegas Renato Casagrande e Marisa Serrano, são claros ao apontar a quebra de decoro parlamentar do presidente do Senado. Doméstenes Torres lamenta que as "coisas vão mudando ao sabor do presidente (Renan Calheiros), que vai pressionando igual a menino de colégio". Clique para ler na íntegra o relatório que pede a cassação do mandato de Calheiros.

Correndo atrás
O Ministério Público decidiu processar o publicitário Marcos Valério, o deputado federal João Paulo Cunha (PT-SP) e outros dez parlamentares que se envolveram em um esquema bisonho para favorecer a agência do gerente do mensalão em contrato de publicidade da Câmara dos Deputados. À época, João Paulo Cunha tinha como assessor ninguém menos que Luiz Costa Pinto – é cunhado do deputado e ex-ministro Eunício Oliveira – que também cuidava dos interesses de Arcos Valério na Casa Legislativa. Em outras palavras, uma ação entre amigos.

Fincando o pé
João Durval, senador pelo PDT baiano, foi categórico ontem ao garantir que não vai sair do partido, mesmo sofrendo pressão de toda a ordem e acusar a agremiação de se "transformar num balcão de negócios". Ao ucho.info João Durval disse que "não vou sair, vou ficar até onde der, porque não preciso da política para sobreviver". Ele chegou ao Senado com 2.655.552 votos (46,97% dos votos válidos), desbancando o oponente Rodolpho Tourinho (ex-PFL), que tentava a reeleição. O senador está entre os seis senadores que menos gastaram na campanha eleitoral em todo o Brasil, segundo as prestações de conta publicadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na Internet. Ele teria gasto na campanha do ano passado R$ 501.990,69. Dos 27 novos senadores eleitos, a maior parte gastou mais de R$ 1 milhão, alguns poucos gastaram até R$ 3 milhões.

Beija-mão
A igreja de Nosso Senhor do Bonfim, em Salvador, foi pequena para receber os carlistas da terra de todos os santos, que compareceram à missa em homenagem aos oitenta anos que Antonio Carlos Magalhães teria completado nesta terça-feira. Além da claque baiana, estiveram no culto os senadores José Agripino Maia, Marco Maciel, Tasso Jereissati e César Borges, além do deputado federal Rodrigo Maia (é presidente nacional do Democratas) e do tucano Geraldo Alckmin. É preciso reconhecer que antes de ACM a Bahia era um estado com inúmeros problemas, mas não se pode esquecer o escândalo do painel do Senado e os grampos ilegais que bisbilhotaram a vida da jovem advogada Adriana Barreto.

Repartindo o bolo
O deputado José Carlos Vieira decidiu nadar contra a maré no próprio partido, o Democratas, que condena a prorrogação da CPMF. O parlamentar catarinense começou a reunir ontem assinaturas para a PEC número 50, que transfere 15% dos recursos do imposto para estados e municípios e aumenta de 0.20 para 0.25 ponto percentual os recursos destinados à saúde. A proposta de José Carlos atropelou o próprio PSDB, que voltou atrás na decisão de aprovar a CPMF, mesmo que houvesse a distribuição dos recursos para os estados e municípios. Agora, Democratas e tucanos falam a mesma língua na Câmara, com exceção, de alguns desgarrados.

Imbróglio novo
A denúncia do Ministério Público Federal, que envolve o Instituto Virtual de Estudos Avançados (Vias), atinge a secretária adjunta da Receita Federal do Brasil, Liêda Amaral. Ela chefiava a Assessoria de Gerenciamento de Riscos do Ministério da Previdência Social, quando foi firmado o contrato de R$ 20 milhões sem exigência de licitação. Liêda Amaral tem entre suas atribuições na super-receita a área de gestão de risco, a mesma área quando Almir Lando dirigia o Ministério da Previdência. A auditora teria costas quentes com nada menos três senadores do PMDB. O contrato com a Vias, que teve parecer contrário da área de tecnologia, deveria funcionar justamente para evitar fraudes no sistema previdenciário.dos envolvidos. A ação será analisada pela 17ª Vara da Justiça Federal, em Brasília.

Frutos do mar
Pensando bem, escolher Lula uma vez é fome política. Duas é gula partidária, três é congestão democrática.

Pagando caro
(05/09/06) - Se Luiz Inácio da Silva, o presidente Lula, está com a reeleição praticamente garantida, a responsabilidade por mais um mandato petista é da oposição e do PMDB governista. Os partidos de oposição – PSDB e PFL – foram incompetentes ao enfrentar politicamente o governo, deixando de lado a oposição republicana para fazer politicagem de fundo de quintal. Já o PMDB governista – José Sarney e Renan Calheiros – é responsável pela estabilidade de Lula nas pesquisas eleitorais. Tivesse o PMDB permitido a candidatura de Anthony Garotinho, a história política do barbudinho mais famoso da Botocundia seria outra. Fosse candidato ao Palácio do Planalto, Garotinho teria, no mínimo, 18% de intenção de votos. Resumindo, o brasileiro pode ir se acostumando com a idéia de ter o PMDB mandando e desmandando.

Ucho Haddad com Gilmar Corrêa e Thaís Margalho

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