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ano 6 - número 1314
sexta-feira, 16 de março de 2007
Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício
"A defesa é o mais legítimo direito dos homens."
Carlos Bernardo González Pecotche
 
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Dor de cabeça
Há dias, Luiz Inácio da Silva, o presidente Lula, em mais um de seus desabafos, disse aos jornalistas que o seguem que a nomeação do novo ministério era um problema dele, e que ninguém tem nada a ver com o assunto. Engana-se o presidente Lula, pois ele é o principal funcionário do povo brasileiro, o que não significa que seja o mais importante ou mais competente. Traduzindo, a nomeação do novo ministério é da conta de mais de 180 milhões de brasileiros. Dos que votaram em Lula, e dos que não votaram. Com tantos bons nomes para serem guindados à Esplanada dos Ministérios, o presidente escolheu Odílio Balbinotti para comandar a pasta da Agricultura, na cota do PMDB. Nem de longe o nosso objetivo é colocar em xeque a competência de Balbinotti – trata-se de um bem sucedido empresário do agronegócio – mas os problemas que o novo ministro enfrenta no STF servirão de munição para a oposição.

Tiro ao alvo
Ainda o novo ministério... Depois de tantas postergações, trazer para dentro do governo alguém com explicações a dar é excesso de irresponsabilidade. Para ilustrar o que pode acontecer com o novo ministro da Agricultura, Odílio Balbinotti, que teve o nome conformado pelo presidente Lula nesta quinta-feira, basta ressuscitar o calvário enfrentado pelo então ministro Romero Jucá (Previdência). Não suportando a artilharia oposicionista, acabou deixando o governo do presidente Lula. Atualmente, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) é líder do governo no Senado. E não causará surpresa se Odílio Balbinotti experimentar agruras idênticas.

Ex sem ter sido
Luiz Inácio da Silva fingiu ter entendido as explicações apresentadas pelo deputado Odílio Balbinotti (PMDB- PR) sobre o processo em que é réu e que corre em segredo de Justiça no STF, mas aceitá-las foi além da capacidade de compreensão do presidente. Tanto é assim, que Balbinotti pode não assumir a pasta da Agricultura. O desconforto que desabou no PMDB foi tão grande, que o presidente da legenda, deputado Michel Temer (SP), se apressou em analisar outros nomes de possíveis ministeriáveis. E quem lidera a lista dos prováveis é o deputado Reinhold Stephanes (PMDB-PR), um profundo conhecedor do universo previdenciário e um político sem mancha no currículo.

Fim do mundo
Dias antes do início oficial da disputa pela Presidência da República, em 2006, Luiz Inácio Lula da Silva disse, com doses extras de certeza, que a saúde no Brasil estava a um passo da perfeição. Quem acompanhou, no último final de semana, a passagem de Lula e da primeira-dama pelo Instituto do Coração, em São Paulo, unidade hospitalar que serviu para testes cardiológicos e de resistência física do casal, certamente acreditou serem verdadeiras a proféticas palavras do presidente. A menos de um quilômetro dali, mais precisamente na confluência da rua Guadalupe com a movimentada avenida Brasil, na rica e badalada região dos Jardins, um aposentado perambula entre os carros parados no semáforo, com uma placa pendurada no pescoço. Como se fosse um gazeteiro mudo, o aposentado traz no peito um apelo: acometido por um câncer, pede ajuda financeira para comprar medicamentos. Enfim, a saúde brasileira é quase perfeita. (Foto: Vidal Cavalcante - Agestado)

Estranho silêncio
Continua causando estranheza a não solução do assalto, seguido de cárcere privado, de que foi vítima o ministro da Fazenda, Guido Mantega, durante o ócio carnavalesco. Sem que o assunto fosse notificado às autoridades pelas vítimas, o crime só chegou ao conhecimento da polícia paulista porque o caseiro do sítio no qual Mantega descansava decidiu contar o que presenciou. De chofre os policiais prenderam dois suspeitos, mas os donos da propriedade não os reconheceram como sendo os criminosos que invadiram a propriedade localizada em Ibiúna. Provavelmente porque os criminosos sabem que na casa de campo tinha muito mais gente do que foi anunciado.

Mico no ar
Se a mídia tupiniquim tem se dedicado a sacrificar as empresas aéreas que estão em evidência – é o preço da fama – as agruras da Nova Varig estão passando ao largo da opinião pública. A empresa aérea tem enfrentado dificuldades para pagar ao governo federal taxas e tributos, cujo valor da dívida já começa a preocupar. Só falta a Nova Varig entrar em recuperação judicial.

Lado B
Em um discurso longo (três horas e dez minutos), entremeado por apartes de políticos de todas as correntes e com lágrimas de sobra, o senador Fernando Affonso Collor de Mello (PTB-AL) deu a sua versão sobre os fatos que levaram ao seu impedimento como presidente da República, em 1992. O que não significa que o então presidente fosse um inocente. Para a coluna, Collor foi culpado por, a exemplo do que acontece com o presidente Lula, não ter tomado conhecimento da bandalheira que se instalou em seu governo. Não se trata de inocentá-lo, mas nenhuma prova documental apontou para Fernando Collor. Porém, como sempre defendeu o editor, desde 1992, cassar o mandato e os direitos políticos de alguém só é possível quando o acusado ainda está no cargo. Fernando Collor renunciou antes do início da votação do impeachment, o que por si só extinguiria o respectivo processo. (Foto: Agência Estado)

Troco dado
Sem revanchismo de qualquer espécie em seu discurso de estréia no Senado, Fernando Collor soube dar as respostas adequadas às pessoas certas. Quando os pedidos de aparte começaram a despontar, não demorou muito para o senador Aloízio Mercadante (PT-SP) pedir a palavra. Mercadante tentou se justificar em demasia, e acabou ouvindo o que não queria, mas de forma muito polida e elegante. O petista disse que à época estava do outro lado, e que “havia equívocos gravíssimos no governo e aquilo não podia continuar”. Depois de tantas e desnecessárias explicações, Collor disse, sem se exaltar, que jamais impedi a instalação de uma CPI. E como para bom entendedor pingo é letra...

Fão de carteirinha
O discurso do presidente cassado e senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL) foi o assunto de maior destaque no Senado Federal, nesta quinta-feira. Por As galerias do plenário estiveram lotadas e, entre o público, encontrava-se Maria Paraíba. A policial, antiga fã de Collor de Mello, esperou oito dias pelo discurso. “Sofri na Paraíba como ele sofreu”, declarou Maria Paraíba. Nascida Severina Barbosa de Oliveira, Maria Paraíba é solteira e garantiu ter viajado a Brasília com o próprio dinheiro. Neste final de semana Paraíba retorna ao seu estado e reassume um cargo no gabinete da Secretaria de Segurança Pública, à espera de Collor, que vai visitar o governador Cássio Cunha Lima nos próximos dias.

Rolo compressor
Depois de muita espera e discussões de sobra, o Senado Federal criou a CPI das Ongs, o que deveria ter acontecido no final do ano passado, mas que dentro de algumas semanas certamente irá tirar o sono de alguns integrantes do governo do presidente Lula. Por orientação do Palácio do Planalto, a base aliada no Senado negociou a ampliação do período da investigação, que inicialmente tinha como ponto de partida o ano de 2003, mas agora passou a ser o de 1999. A continua tentativa do PT de querer encontrar culpa nos adversários para justificar os próprios tropeços já está cansando. O senador Heráclito Fortes (PFL-PI), autor do requerimento da CPI, sugeriu que o período a ser investigado fosse desde o descobrimento do Brasil. “Seria bom que a Base do Governo, sem querer atingir os Governos atrasado e retrasado, ampliasse até Cabral, porque seria a oportunidade que teríamos de saber se, realmente, aquelas garrafas do velho vinho Pêra-Manca que desapareceram na Caravela Real que veio ao Brasil foram furtadas ou caíram ao mar. Seria bom que assim fosse feito”, ironizou o senador piauiense.

Dedo mindinho
O diálogo do presidente Luís Inácio Lula da Silva com o Parlamento, até mesmo com sua base do partido, é mínimo. Que o diga o senador gaúcho Paulo Paim (PT), que desde as eleições de outubro até ontem não trocou um telefonema sequer com o companheiro Lula. Definitivamente fora do grupo preferido pelo Palácio do Planalto, o senador gaúcho anda à margem das decisões acerca do novo ministério e, até mesmo, da crise petista por conta dos nomes dos novos ministros. É preciso lembrar que o grande erro de Fernando Collor de Mello, à época do impeachment, foi abandonar a classe política.

Megafone oficial
A realização de um mutirão nacional para discutir e divulgar aos brasileiros a Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas é o pedido do senador Adelmir Santana (PFL-DF), porta-voz dos empresários do Distrito Federal. A lei, que terá seus benefícios fiscais implantados a partir de junho próximo, deve criar de cinco milhões de empresas, colocar na legalidade cerca de dez milhões de empreendimentos e gerar dois milhões de empregos a cada um milhão de novos negócios. Santana acredita que por falta de divulgação muita gente não ficará sabendo dos benefícios da Super Simples.

Piadista de quinta
Não bastasse sua circense participação na sessão extraordinária da CCJ, na quarta-feira, o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) continuou a fazer piadas nos cantos do Congresso. Nesta quinta-feira, Ciro Gomes fazia ares de pouco caso durante o discurso do deputado e pecuarista Ronaldo Caiado (PFL-GO), que na ocasião comparava o relacionamento do Executivo com o Legislativo segundo a ótima de Gramsci, onde só o que interessa é a opinião do Príncipe - no caso Lula. Com seu conhecido e cínico sorriso, Ciro disparou: “É, a coisa está melhorando”. Piada qualquer um pode fazer quando quiser, mas o mais difícil é imaginar que tal cidadão já foi ministro duas vezes. Pobre Brasil!

Fio trocado
O ministro da Educação, Fernando Haddad, e o presidente da Comissão de Educação da Câmara, deputado Gastão Vieira (PMDB-MA) estão operando em sintonia fina. O parlamentar recebeu na tarde de ontem, quinta-feira, um telefonema do ministro dizendo que enviaria em primeira mão uma cópia do Plano de Educação, o chamado PAC da Educação, que promete revolucionar o ensino. Por via das dúvidas, Gastão tentava encontrar o senador Cristóvão Buarque (PDF-DF), tido como um especialista da área, mas uma persona non grata do governo Lula.

Nomeando errado
Pensando bem, se depender dos novos ministros, o tal Plano de Aceleração será uma freada na curva.

Intifada gauche
(16/03/06) - Até mesmo petistas históricos, hoje não mais no Partido dos Trabalhadores, como é o caso da deputada federal Luiza Erundina, concordam com os resultados da pesquisa. Em conversa com o editor, Erundina – a única comandante da maior cidade do país que de fato trabalhou para a classe mais pobre – reconhece que Luiz Inácio Lula da Silva não está eleitoralmente morto, mas admite que Geraldo Alckmin é um forte candidato e com muita possibilidade de crescimento até a eleição presidencial. Luiza Erundina, diante do verdadeiro oceano de escândalos de corrupção, se diz profundamente decepcionada, pois, como fundadora do Partido dos Trabalhadores, crê ter sido traída em seus princípios pessoais e ideais políticos. E mais: a ex-prefeita paulistana disse que caso o seu partido, o PSB, vier a apoiar o presidente Lula em sua campanha à reeleição, acatará a decisão partidária literalmente contrariada.

Ucho Haddad

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