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ano 6 - número 1311
terça-feira, 13 de março de 2007
Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício
"Quem sabe faz; quem não sabe, ensina."
Bernardo Shaw
 
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Parou de vez
As repartições públicas federais estão praticamente paradas, desde a primeira promessa de anúncio do novo ministério. E a paralisação só não é total porque os salários estão sendo pagos religiosamente em dia. A pasmaceira que tomou conta da máquina pública federal tem no corte de verbas a sua única explicação. A falta de recursos para o expediente e para as diárias, por exemplo, parou o Ibama, que há três meses deixou de exercer sua função de fiscalizar o meio-ambiente. Situação semelhante pode ser encontrada em praticamente todos os ministérios, com sérios prejuízos ao contribuinte brasileiro, em especial o mais pobre. A raiz da crise está na sempre postergada reforma ministerial, cujo maior responsável é o próprio Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.

Chumbo vermelho
O que os leitores da coluna souberam com a devida antecedência, o jornal Folha de São Paulo trouxe somente na edição do último domingo. Como noticiamos, o presidente Lula vai investir tempo e dinheiro na criação de um rede nacional pública de TV. A idéia, que há muito é discutida internamente no PT, pode ser mais um capítulo da fábula que tem a esquerdização do País como roteiro, e poderá contar com mais um canal de comunicação, a exemplo do que faz o presidente venezuelano Hugo Chávez, que brinca com as emissoras privadas de televisão de seu país. Quem deve assumir o comando do projeto luliano é o jornalista Franklin Martins – atualmente está na Rede Bandeirantes – que substituirá o porta-voz da Presidência, André Singer. Em 2006, Franklin Martins deixou a Rede Globo sob um fogo cruzado midiático, no qual foi acusado de manter relações bisonhas com o poder (uma delas seria a indicação de seu irmão, Victor Martins, para uma diretoria da ANP). (Foto: Agência Estado)

Pau mandado
Amanhã, quarta-feira, desembarca em Brasília o presidente da Nicarágua, o ex-guerrilheiro sandinista Daniel Ortega. Em visita oficial ao Brasil, o mandatário nicaragüense vai tratar com o companheiro Lula assuntos relacionados à produção de etanol, já que na Nicarágua o cultivo de cana-de-açúcar é abundante, respeitando a extensão territorial daquele país. Muito estranhamente, depois das manifestações anti-Bush que comandou em Buenos Aires, o venezuelano Hugo Chávez fez uma parada estratégica em Manágua. Lá, na capital dos nicaragüenses, Chávez certamente balizou a conversa que Ortega terá com Luiz Inácio Lula da Silva. Até porque, o venezuelano não gostou dos salamaleques disparados por Lula na direção de George Walker Bush. (Foto: Presidência da Nicarágua - Associated Press)

Velho camarada
Nesta segunda-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu início à tão esperada reforma ministerial, com a posse do novo titular da Advocacia-Geral da União, ministro José Antônio Dias Toffoli. Durante a passagem de José Dirceu pela Casa Civil, Toffoli foi o sucessor imediato do então ministro. Em 2006, ano em que o PT sofreu os mais diversos ataques por conta dos escândalos de corrupção, José Antônio Toffoli foi o advogado do partido do presidente Lula. Função que desempenhou nas duas últimas eleições presidenciais. Explicar mais seria redundância.

Agora vai
Com a possibilidade cada vez mais crescente de a CPI do Apagão Aéreo ser instalada, agora por possível decisão do Supremo Tribunal Federal, emissários palacianos trabalham nos bastidores para limitar as investigações, deixando no olho do furacão apenas as companhias aéreas. Acontece que a responsabilidade pela recente crise aérea é o governo federal, pois investimentos no setor foram literalmente abandonados. O presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, que já não agüenta mais dar tantas explicações sobre as estripulias de seus antecessores, admitiu nesta segunda-feira o que a coluna vem alertando há muito tempo: que o aeroporto internacional Tom Jobim, no Rio de Janeiro, é ocioso. Ora, se o antigo Galeão é ocioso, como reconheceu Pereira, resta saber quem determinou a construção do segundo terminal no aeroporto fluminense, sendo que os de Guarulhos e Congonhas continuam liderando o movimento de passageiros. Ou foi falta de planejamento, ou truque barato.

Capitalismo selvagem
Se a CPI do Apagão Aéreo de fato concentrar munição na direção das companhias aéreas, o alvo principal das investigações pode ser a Tam, que, para a concorrência, deve pagar pela crise que se instalou em dezembro último nos aeroportos brasileiros. O que pouco se fala – ou quase nada – é que o acidente com o Boeing da Gol caiu no esquecimento popular, e das autoridades também, pois o abafamento do assunto é de pleno interesse do Palácio do Planalto e da própria companhia aérea. Ver a Tam ardendo na fogueira da CPI é o desejo dos concorrentes, pois a companhia criada pelo saudoso comandante Rolim Adolfo Amaro continua liderando a aviação comercial brasileira, o que desagrada a muitos falsos moralistas. E como ninguém é de ferro, a família Constantino, dona da Gol, mantém íntimas e mineiras relações com o vice-presidente José Alencar. Apenas um mero detalhe no milionário negócio de transportar gente pelos céus do Brasil. Mais: quem arregaçou as mangas na empreitada palaciana foi o líder do governo na Câmara, deputado José Múcio Monteiro (PTB-PE). Aí tem!

Inventando moda
Derrotado na disputa pelo governo do Mato Grosso do Sul e ex-presidente da CPI Dos Correios, o senador Delcídio Amaral (PT) apresenta nas próximas semanas projeto de lei que anistia o repatriamento de recursos financeiros mantidos ilegalmente no exterior por brasileiros. De acordo com o advogado Ricardo Tosto, autor do projeto apresentado ao parlamentar sul-mato-grossense, “é algo que países como Alemanha, Itália, Espanha, Bélgica e Estados Unidos já fizeram”. Como na vida coincidências não existem, Ricardo Tosto é um dos advogados que defendem o quase sempre enrolado Paulo Maluf, ex-prefeito paulistano e atualmente cumprindo mandato de deputado federal. Estranha, tal situação mostra que parlamentares se valem de terceiros para o cumprimento de seus compromissos políticos, prática que muitas vezes contraria os interesses das classes menos privilegiadas. Enfim, há quem diga que o Congresso é a casa do povo.

Persona grata
Ainda as coincidências... A proximidade de Ricardo Tosto com o poder, em Brasília, encurtou o caminho até o senador Delcídio Amaral, receptor do polêmico projeto legislativo. Na briga que a família de Celso Daniel vinha promovendo para descobrir a verdade sobre a trágica morte do ex-prefeito de Santo André, muitos processos foram protocolados na Justiça numa espécie de chumbo trocado entre os acusados de participarem do esquema de arrecadação de propinas na próspera cidade do ABC paulista. No processo de indenização por danos morais (808/2004), movido contra o médico João Francisco Daniel, irmão do ex-prefeito, o autor, José Dirceu de Oliveira e Silva, contou com o conhecimento jurídico do advogado Ricardo Tosto. Coincidência!

Se a moda pega...
Deputado federal pelo PCdoB maranhense, Flávio Dino é autor do Projeto de Lei que cria a indenização às famílias de vítimas de bala perdida. De acordo com o projeto do parlamentar, a idéia é indenizar as famílias em R$ 350 mil, com prazo máximo de recebimento de noventa dias. Para o deputado Flávio Dino, “presume-se responsabilidade do Estado. Ele tem de pagar. Se posteriormente descobrir de onde partiu o tiro, vai cobrar do agressor”. No País onde o ócio leva o desocupado a idéias mirabolantes, não será novidade se da noite para o dia surgir uma fila de candidatos à indenização. Em alguns estados norte-americanos, alguns insanos torcem para sofrer um atropelamento de pequenas proporções, pois as indenizações nestes casos são milionárias. Sempre lembrando que a indústria da indenização é um próspero negócio nos EUA.

Óleo de peroba
Por decisão do juiz Renato Barbosa, da 15ª Vara Cível do Rio de Janeiro, a eleição do Clube de Regatas Vasco da Gama, realizada em 13 de novembro de 2006, está anulada. Tumultuado, o processo eleitoral vascaíno, que reconduziu o ex-deputado federal Eurico Miranda à presidência do clube carioca, teve lances de fazer inveja à Chicago dos anos 40. Em nome do Vasco, Eurico Miranda publicou nota oficial nos jornais do Rio de Janeiro, onde acusa a oposição de se valer de “métodos que não condizem com a tradição centenária” do clube. Para alguns cartolas do futebol brasileiro, que fazem de alguns clubes verdadeiros currais da vaidade e do desmando, normal é tudo aquilo que o bom senso condena. Como enviar ilegalmente dinheiro para o exterior e concordar com o voto de sócios que já passaram para o outro lado da vida. Ou será que no além tem urna do Vasco?

Estrutura abalada
Durante palestra realizada em São Paulo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – ainda cacique do PSDB – criticou a decisão do partido de apoiar a candidatura do deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) à presidência da Câmara. O discurso de FHC foi um duro recado ao governador José Serra, que nos bastidores trabalhou intensamente por Chinaglia. Para mostrar que ninho tucano também pode rachar, FHC disse que Geraldo Alckmin é um bom nome para disputar a prefeitura paulistana em 2008, assunto que ambos trataram, semanas atrás, nos EUA. Não se pode esquecer que por ocasião da escolha do nome do presidenciável tucano que enfrentaria o presidente Lula, em 2006, FHC trabalhou contra Alckmin.

O tempo passa
Nesta segunda-feira, 12 de março, o desabamento da obra do Metrô, em São Paulo, completou dois meses, sem que a verdade dos fatos tenha sido anunciada. Se por um lado o governo paulista aposta na curta memória do eleitor, para que o assunto caia no esquecimento, a tragédia do Metrô paulistano pode desembarcar na Câmara dos Deputados. A idéia tem sido alimentada pelos partidos da base de sustentação do governo Lula, como forma de obrigar os oposicionistas a desistirem da instalação da CPI do Apagão Aéreo. Neste caso teríamos um duelo entre dois governos temerosos, pois enquanto o Palácio do Planalto não quer pensar na possibilidade de devassa na contabilidade da Infraero, o Palácio dos Bandeirantes, sede do Executivo paulista, quer ver o escândalo do Metrô soterrado. E sem direito a resgate.

Memória fraca
Com o etanol dominando a pauta do cotidiano, as medidas contra o avanço da criminalidade saíram de cena. Como afirmou o editor da coluna em recente artigo, a bárbara morte do pequeno João Hélio, no Rio de Janeiro, vai se restringir a discussões de porta de boteco e conversas de cabeleireiro. Lula sabe que suas promessas para o setor da segurança pública não foram cumpridas, e colocar o poderio policial do Estado nas ruas, durante a visita de George Bush ao Brasil, foi uma forma sorrateira de mostrar ao contribuinte do que o Palácio do Planalto é capaz. Na verdade, o excesso de zelo das autoridades brasileiras com o presidente Bush assustou inclusive os assessores da Casa Branca. Segundo alguns escudos humanos do mandatário ianque, os brasileiros exageraram na dose.

No mínimo esquisito
Mais uma decisão arbitrária foi tomada para garantir a realização dos Jogos Pan-Americanos. O prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, entendeu não ser necessária licitação para contratar a empresa que cuidará do paisagismo da Vila do Pan, obra que continua sob a mira das autoridades, pois os recursos para a construção foram liberados contrariando parecer técnico da Caixa Econômica Federal. Para César Maia, que acredita que o Pan 2007 será realizado sem nenhum contratempo, disse que “só se houver um tsunami, terremoto ou tornados em função do aquecimento global. Essas coisas podem acontecer. Se não, está tudo dentro do prazo, sem problema”. Ora, se o cronograma das obras, segundo o alcaide carioca, está dentro do prazo, não há razão para dispensa da licitação. Assim, resta concluir que a modalidade que conquistará o maior número de medalhas na competição será o arremesso de contas no bolso do contribuinte. E muito dinheiro no bolso de alguns espertinhos.

Terapia intensiva
Pensando bem, nas mãos de Lula o Brasil mais parece um paciente em coma. Se o Criador ajudar, um dia ele acorda.

O negócio é comprar!
(13/03/06) - Como sempre, a farra palaciana com compras desnecessárias continua a todo vapor. De acordo com o processo de licitação nº 00140.000055/2006-19, o gabinete do presidente Lula vai torrar a bagatela de R$ 112.737,00 em roupas de cama e banho. Da listinha de dezesseis itens, constam 292 colchas, 260 fronhas, 292 lençóis, 275 toalhas, 4 jogos completos de toalha, 69 edredons e 91 travesseiros. E tudo da melhor qualidade, é claro, até porque, ninguém na república luliana é de ferro ou comunista o suficiente para fazer da teoria do tudo comum todos a reza do cotidiano. Com a palavra, o presidente “gastão”, Luiz Inácio Lula da Silva.

Ucho Haddad

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