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ano 6 - número 1309
sexta-feira,9 de março de 2007
Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício
"Não há nada que defina melhor uma pessoa do que aquilo que ela faz quando tem toda a liberdade de escolha."
Alceu Santos
 
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Radiografia da verdade
Além do etanol brasileiro, o quesito direitos humanos irá rechear a pauta da conversa entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George Walker Bush. A Casa Branca produziu recentemente um relatório sobre o tema, colocando o Brasil no olho do furacão, mas o Palácio do Planalto tratou de rechaçar as acusações ianques. Acontece que a inexplicável e sanguinária invasão do Iraque e a prisão norte-americana na base naval de Guantánamo, em Cuba, não conferem ao governo de Bush, o baby, qualquer prerrogativa para tratar do assunto. Por outro lado, se o presidente George Bush souber da escravidão que ainda impera nas plantações de cana-de-açúcar, o etanol fica de lado e os meninos do Tio Sam começam a andar a pé. Mais: as queimadas promovidas pelas usinas de açúcar e álcool na época que antecede ao plantio da cana são simplesmente criminosas.

Cabeça de papel
Em entrevista à imprensa, um representante das Forças Armadas disse aos jornalistas que todos os itens do esquema de segurança do presidente George W. Bush foram rigorosamente cumpridos, não existindo algum que tenha recebido maior ou menor atenção por parte das autoridades envolvidas. Com cinco mil homens no esquema de segurança do presidente norte-americano – na edição de ontem informamos que eram quatro mil, mas o contingente policial foi aumentado – o Brasil mostra ao mundo que democracia é uma coisa relativa. Ou seja, dela só se beneficia quem pode. Depois da operação cinematográfica montada em São Paulo, qualquer brasileiro pode bater à porta do Palácio do Planalto reclamando da segurança pública. E coitado do Lula se der de ombros.

Às avessas
Em 2003, quando o editor da coluna assinou artigo em que abordava a “cubanização” do País, muitos foram aqueles – da direita e da esquerda – que chiaram, alegando excessos redacionais na exposição de uma conduta criminosa e totalitarista por parte dos que ora estão no poder. A vinda de George W. Bush ao Brasil, quatro anos mais tarde, mostra que o tal processo de “esquerdização” está em marcha. A ala gauche da política brasileira saiu às ruas para protestar contra a presença do presidente americano em território brasileiro, mas ficou calada diante do surrupio das instalações da Petrobras na Bolívia, que o cocalero Evo Morales simplesmente nacionalizou. De igual maneira, a esquerda brasileira silenciou diante da roubalheira advinda do Palácio do Planalto por ocasião do mensalão, assim como nada disse a respeito da ditadura que se instala na Venezuela. Essa esquerda...

Trabalho difícil
O trabalho que o presidente Lula terá para remendar a fissura ocasionada no PMDB pelo recente racha político não será dos mais fáceis. Durante a posse dos líderes do governo no Congresso, evento que teve lugar no Palácio do Planalto, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), não compareceu. À senadora Roseana Sarney (PMDB-MA), nova líder do governo no Congresso, Renan alegou tratar-se de “de uma posse de governo e de um assunto interno do Palácio do Planalto que nada tem a ver com a presidência do Senado”. O posicionamento de Renan Calheiros mostra não apenas que o PMDB rachou depois de Nelson Jobim ter desistido de disputar a presidência do partido, mas que o presidente Lula terá sérios problemas para aprovar o PAC. O senador José Sarney (PMDP-AP), que integra o grupo de Renan Calheiros, compareceu à cerimônia como pai. (Foto: parana-online)

Pai dos burros
Durante a cerimônia de posse dos novos líderes do governo – senadora Roseana Sarney (Congresso), senador Romero Jucá (Senado) e deputado José Mucio Monteiro (Câmara) – o presidente Lula, abusando de sua conhecida e inconseqüente verborragia, disse aos presentes que durante seu primeiro mandato manteve um relacionamento “o mais virtuoso possível” com o Congresso Nacional. Mesmo conhecendo o significado da palavra virtuoso, decidimos pedir socorro aos dicionários, na hipótese de alguma mudança gramatical ter ocorrido da época do mensalão para cá. Nos dicionários consultados, o vernáculo virtuoso aparece como sendo “aquele que possui e cultiva qualidades de virtude moral”. Com boa parte dos parlamentares da Câmara se beneficiando com uma praga chamada mensalão, resta saber em qual ponto do relacionamento com o Congresso é que a virtude moral se escondeu. (Foto: terradaily.com)

Memória curta
No rastro do discurso eleitoreiro do presidente Lula, que na última campanha abusou ao dizer “nunca neste país se investigou tanto”, cobranças são necessárias para determinados assuntos. Revelado pela revista Veja, o caso das contas bancárias no exterior, pertencentes a autoridades do governo federal, incluindo o presidente Luiz Inácio, voltou para a Polícia Federal há pouco mais de um mês. O único ouvido em depoimento até então foi o jornalista Márcio Aith – autor da reportagem – cujo caráter, diga-se de passagem, é do mais alto calibre. A fonte do jornalista, o banqueiro tupiniquim “Tantas” (o verdadeiro nome a Justiça nos proíbe de citar) continua solto e sorridente, encarando o imbróglio como mais uma das costumeiras e hilárias armações que pontuam o seu currículo. Pois então, presidente Lula, Vossa Excelência vai adotar a teoria do quartel d’Abrantes? Tudo como era d’antes?

Prova de fogo
O deputado federal José Mucio Monteiro (PTB-PE) estreou, nesta quarta-feira, como líder do governo na Câmara, o que o obrigou a um jogo de cintura além do limite para tentar defender o Palácio do Planalto, contrário à instalação da CPI Apagão Aéreo, comissão que investigará não apenas o fiasco em que se transformou o controle do espaço aéreo brasileiro, mas principalmente as estripulias financeiras da Infraero, assunto que aterroriza empreiteiros e assessores palacianos. Por outro lado, a indicação de José Mucio para representar o governo na Câmara cria uma situação de dualidade. De um lado, por ser do PTB, partido presidido por Roberto Jefferson, José Mucio traz na bagagem político-partidária as denúncias contra o esquema do mensalão. Por outro, Mucio abre uma enorme avenida de possibilidades para o tio, Armando Monteiro Filho (é pai do deputado federal e presidente da CNI, Armando Monteiro Neto), que tenta recuperar os ativos do finado Banco Mercantil de Pernambuco, congelados pelo Banco Central. Tudo combinado.

Problemas pela frente
Quando usamos o verbo investigar no futuro – investigará – em referência à instalação da CPI do Apagão Aéreo, é porque apostamos na decisão favorável do Supremo Tribunal Federal, pois todos os requisitos regimentais foram devidamente cumpridos. E não instalá-la, como quer a oposição, seria um vilipendio à Constituição Federal. Como noticiamos na edição de ontem, quinta-feira (8/3), a madrugada seria suficiente para o Palácio do Planalto negociar a não instalação da CPI. Por 261 votos contra a instalação e 46 a favor, a CPI do Apagão Aéreo não será instalada por enquanto. O maior temor da assessoria presidencial repousa sobre a possibilidade de uma devassa nas contas da Infraero, que abusou dos superfaturamentos nas obras de maquiagem de muitos aeroportos brasileiros. O que o governo Lula patrocinou nesta quinta-feira foi mais um tapa na cara de uma sociedade que, leniente, assiste aos escândalos literalmente calada.

Me dá um dinheiro aí
Na última terça-feira, os governadores chegaram em Brasília de pires na mão, e voltaram para seus estados com a mão abanando. Um dos desejos do grupo era convencer o presidente Lula sobre a necessidade da divisão da CPMF e da Cide (Contribuição de Intervenção sobre o Domínio Econômico) – é também conhecida como o imposto da gasolina – mas a empreitada não teve sucesso. A única promessa ouvida foi que o governo federal não irá represar as verbas destinadas à segurança pública, como se liberá-la fosse um enorme favor. Investimentos na segurança pública, como em outras áreas, é uma garantia constitucional, e Luiz Inácio Lula da Silva tropeça no discurso ao prometer o que já é devido. Em um país minimamente sério, o presidente já estaria preso. Mas no Brasil...

Sonhar é possível
“O PMDB tem uma história de luta em favor do nosso país e do nosso povo”. Eis a frase que marca o programa político do PMDB, que invadiu as emissoras de rádio e televisão nos últimos dias. Inicialmente, é preciso lembrar que o PMDB não luta pelos interesses do povo, mas apenas por seus próprios interesses, e de seus correligionários. Fosse verdadeira essa inexistente luta pelo povo, o PMDB não permitiria que o mensaleiro José Borba, que acusado de integrar o mensalão renunciou para não ser cassado, continuasse operando livremente nos bastidores. No contraponto, essa história de luta do PMDB é balela, pois José Sarney, que abandonou o seu curral eleitoral do Maranhão para se fazer senador pelo Amapá, precisou amordaçar a imprensa local para se reeleger em 2006.

São Tomé
Ainda o PMDB... No programa político do partido, o senador Valdir Raupp (RO), um fã do Palácio do Planalto, aparece defendo a aprovação do PAC e exaltando os benefícios que o Plano de Aceleração do Crescimento trará ao País e, em especial, para seu estado, Rondônia. Com o racha que desabou sobre o PMDB por conta da disputa pela presidência do partido, uma inversão de valores ocorreu dentro do partido. Os que eram governistas mudaram de lado, e os oposicionistas, idem. E quem conhece minimamente os bastidores da política sabe que o PAC não será facilmente aprovado como anuncia o senador Raupp.

Voltando com tudo
“O seu passado é uma luz que me ilumina”. Desta maneira o deputado Celso Maldaner (PMDB-SC) aparteou o gaúcho Ibsen Pinheiro, que, após seu retorno à Câmara dos Deputados, re-estreou na tribuna da Casa Legislativa. “A sua história faz parte da história dos homens públicos de dignidade deste País”, assim Ibsen Pinheiro foi recebido por Vital do Rêgo Filho (PMDB-PB). Ex-presidente da Câmara, o deputado Ibsen Pinheiro, vítima de uma matéria jornalística irresponsável e criminosa, teve os direitos políticos cassados por suposto envolvimento no escândalo dos Anões do Orçamento. Mas o pronunciamento mais forte e emocionado foi o do deputado Alceni Guerra (PFL-PR), que, quando ministro da Saúde do governo Collor, foi alvo de acusações infundadas que tiveram a Rede Globo como berço. Resumir as palavras do bravo Alceni seria cortar a emoção que transbordou em seu aparte. Assim, publicamos na íntegra as palavras do deputado Alceni Guerra, as quais você confere clicando aqui.

Calça justa
Fã incondicional do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o governador do Paraná, Roberto Requião vive desde ontem uma situação de puro constrangimento político. O deputado estadual Ney Leprovost (PP) apresentou à Assembléia Legislativa paranaense moção para classificar Hugo Chávez como “persona non grata” na terra dos pinheirais. A moção foi aprovada, e Requião agora enfrenta uma verdadeira sinuca de bico. Se não defender Hugo Chávez, perde o amigo; se defender, cai em desgraça com o eleitorado. E agora, governador? (Foto: Wikipedia)

Mãos ao alto
Diante da decisão do Comitê de Política Monetária, o amaldiçoado Copom, de reduzir em 0,25 ponto percentual a taxa básica de juros, a Selic, que agora está na casa dos 12,75% ao ano, o Banco do Brasil reduziu os juros para os contratos de cheque especial e dos cartões de crédito - a taxa mínima do cheque especial e dos cartões de crédito foi reduzida de 1,98% para 1,96% ao mês, e a máxima, de 7,68% para 7,66% ao mês. Tudo muito bem, se as outras taxas não representassem um verdadeiro assalto ao consumidor. O BB, que embarcou na política de eliminar funcionários, empurrando o cliente para transações eletrônicas, estipulou um limite de números de saques mensais. Quem ultrapassar a quota estabelecida pelo Banco do Brasil paga R$ 1,20 por cada saque. É fato que R$ 1,20 representa muito pouco em termos financeiros, mas em um saque excedente no valor de R$ 20 a famigerada tarifa representa 6% do valor sacado. É melhor chamar o ladrão.

É o fim
Pensando bem, se o mensalão foi um sinal de virtude do governo Lula, Fernandinho Beira-Mar é o próximo candidato a papa.

Meu carro é vermelho
(09/03/06) - Se depender do Palácio do Planalto, o dinheiro do contribuinte vai continuar saindo pelo ralo. De acordo com o processo de licitação nº 00140.000001/2006-53, o gabinete do presidente Lula vai adquirir 60 mil litros de gasolina e 18 mil de álcool combustível, tudo pela módica quantia de R$ 188.724,00, o que equivale a 539 ricos salários mínimos. A enorme quantidade de combustível, que certamente será fornecida a partir de abril, será utilizada pela segurança do escritório da Presidência da República em São Bernardo do Campo, cidade onde Luiz Inácio da Silva tem seu domicílio. Considerando que da data prevista da entrega dos produtos até o final de 2006 restarão apenas nove meses, a segurança presidencial na cidade do ABC vai torrar 8.666 litros de combustível por mês ou, para os amantes dos números, 290 litros por dia. Ou tem algo muito mal explicado, ou alguém quer brincar de Joana D’Arc.

Ucho Haddad

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