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ano 6 - número 1297
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007
Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício
"Existem políticos que vão acabar me convencendo que o crime compensa."
Salim Mahan, sociólogo árabe
 
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Compasso de espera
Como no Brasil o ano só começa depois da passagem do último trio elétrico, o presidente Lula, cada vez mais refém do PMDB, precisa dar início ao seu segundo mandato. Oficialmente, o segundo governo da era luliana teve início em 1º de janeiro próximo passado, mas na política, como na escola, tudo carece do novo para ser considerado um começo sem erros e ranços. Lula vem postergando o anúncio de sua equipe ministerial, o que tem patrocinado a impressão de que tudo é velho e conhecido. Lembrando que o primeiro mandato do petista foi marcado por incompetências e corrupção, pode-se dizer que o Brasil ainda patina na lama. O que deveria acontecer, depois de tantos adiamentos, na seqüência do Carnaval, pode demorar mais algum tempo. E o gaúcho Tarso Genro, ainda ministro das Relações Institucionais, disse que a reforma ministerial não será uma revolução. Ou seja, será um remendo. (Foto: radiometropole.com.br)

Todo cuidado é pouco
O projeto petista que transfere poderes ao presidente Lula de convocar plebiscitos e referendos populares sem passar pelo Congresso é, além de um vilipendio ao parlamento brasileiro, uma vertente do chavismo que começa a invadir a América Latina. A tentativa ditatorial que tem o Palácio do Planalto como nascedouro vai trazer sérios problemas ao presidente Lula, que sonha em aprovar, com raras mudanças, um fiasco batizado de Plano de Aceleração do Crescimento. Se quiser ver o PAC aprovado, mesmo que parcialmente, Lula precisará convencer o PT a desistir do projeto de poder. Do contrário, o PAC ficará sem aceleração alguma.

Uma vergonha!
Ainda o crescimento acelerado... Quando se fala em PAC, não se pode esquecer que recuperar o setor da infra-estrutura é obrigação primeira. Quem, nesse feriado prolongado, fez uso da rodovia Régis Bittencourt (BR-116), no sul do País, percebeu com facilidade que o PAC vai empacar nas estradas brasileiras. A quase infindável quantidade de buracos no asfalto fez com que uma das mais importantes e movimentadas rodovias brasileiras fosse transformada em uma esburacada estrada afegã. Muitos dos que viajaram neste feriado voltaram para casa com uma despesa inesperada e extra. O custo de um pneu destruído pelos buracos.

Exemplo a ser seguido
No auge da corrida presidencial de 2006, o presidente Luiz Inácio foi acusado por seus adversários de ter torrado uma verdadeira fortuna na aquisição do avião presidencial, o Aerolula. Em muitos dos debates, o tucano Geraldo Alckmin, que terminou em segundo lugar, disse que, se eleito, venderia o Aerolula para investir o dinheiro na construção de hospitais. Se a idéia tucana era inédita, não se sabe, mas o fato é que o governo peruano decidiu adotar o que por aqui ficou só no discurso. Por decreto, o presidente do Peru, Alan García, determinou a venda do avião presidencial, avaliado em US$ 25 milhões, para investir na construção de um hospital infantil. Diferentemente de nossos vizinhos peruanos, nós brasileiros temos a sorte de viver em um País sem caos social e com a Saúde bem próxima da perfeição. (Foto: abc.es)

Dinheiro de sobra
Não faz muito tempo, a camarilha rouge que desembarcou nas CPIs que investigaram o mensalão e outros salamaleques oficiais da corrupção afirmou, repetidas vezes, que o PT enfrentava uma grave crise financeira. Sem que nenhum dos culpados tenha sido apenado, por enquanto, o PT desembolsou R$ 500 mil para reformar sua sede, em Brasília. Tal despesa beira a estranheza para uma agremiação que ainda não pagou a dívida contraída junto aos bancos Rural e BMG, como também não explicou a origem da dinheirama que seria usada para comprar o Dossiê Cuiabá.

De olho na grana
Lançado pelo BNDES na última quinta-feira, 15, o Programa de Apoio à Implementação do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre (Protvd) vai movimentar, até o ano de 2013, a bilionária fortuna de R$ 12 bilhões. Do total, R$ 7 bilhões terão a compra das caixas conversoras com fonte, enquanto os outros R$ 5 bilhões serão oriundos de investimentos na transmissão. Ë por essas e outras que o Partido dos Trabalhadores luta nos bastidores para desalojar do Ministério das Comunicações o senador mineiro Hélio Costa. Porém, como o presidente Lula depende, e muito, do PMDB, o peemedebista Costa deve mesmo permanecer à frente do ministério.

Assim com o homem
A intimidade com o poder proporciona sensações estranhas, que vão desde a impunidade até o sonho de ser o próprio poderoso. Tendo no currículo alguns despachos nada desinteressados no gabinete anexo ao do sogro (Luiz Inácio Lula da Silva), o primeiro-genro Marcelo Sato – é casado com Lurian Lula da Silva – agora circula pelo Congresso Nacional como assessor parlamentar. Visto com freqüência no segundo andar do anexo IV da Câmara dos Deputados, Sato ostenta na lapela um broche com as armas da República. Ao que consta, mesmo sendo um patriotismo que não combina com o modelo brasileiro, trata-se de um costume ministerial. Ou será que ser genro do presidente Lula tem status de ministro?

Falta de bom senso
A hipocrisia que tomou conta do povo brasileiro, por ocasião da tragédia ocorrida com o garoto João Hélio, ressuscita nesta quarta-feira de Cinzas, quando o assunto certamente vai dominar, por mais algumas semanas, as conversas do cotidiano nacional. As recentes manifestações contra a insegurança pública se esvaíram no primeiro batuque carnavalesco. A idéia – repetida, diga-se de passagem – de homenagear João Hélio em vários eventos momescos foi algo semelhante a dar esmola no semáforo. O cidadão acredita estar cumprindo uma obrigação, enquanto alivia o peso da própria consciência. Fosse o povo brasileiro minimamente politizado, um apagão carnavalesco teria entrado em cena. Mas a folia correu solta, do Oiapoque ao Chuí.

Perdendo o gás
Com a chegada do Carnaval, o imbróglio do gás venezuelano evaporou como se lança-perfume fosse. Na verdade, o discurso prosaico do presidente Lula serviu apenas para comover o contribuinte, pois aos brasileiros não compete financiar o caos social da vizinha Bolívia. Que pagava US$ 1 por milhão de BTU de gás não era o governo brasileiro, mas a empresa Termoelétricas de Corumbá, do empresário Eike Batista. É importante lembrar que o nome de Eike Batista é facilmente encontrado na agenda telefônica do senador Delcídio Amaral (PT-MS), que presidiu a polêmica CPI Mista dos Correios. E mais: coincidência ou não, Delcídio foi diretor de Gás da Petrobras. Agora só resta saber de onde vem o gás da estrutura política do senador Delcídio.

Braço de ferro
Tem sobrado confete e serpentina na carnavalesca briga entre Roberto Requião, governador do Paraná, e Beto Richa, prefeito de Curitiba. E nesse episódio quixotesco da política paranaense, só ficou de fora Rafael Grecca, uma espécie de Joasinho Trinta dos pinheirais. Requião acusou Richa de ter recebido R$ 10 milhões durante a campanha de 2002, dinheiro que, segundo o governador, teria passado pela conta bancária da marqueteira Cila Schulamnn. Antiga, a briga entre Roberto Requião e a família vem desde os tempos em que José Richa Filho, irmão do prefeito curitibano, era diretor administrativo-financeiro do Departamento de Estradas e Rodagem do Paraná (DER-PR), durante a gestão do então governador Jaime Lerner. De lá para cá, a fissura política não desapareceu. (Foto: folhadepalotina.com.br)

Confusão de respeito
Ainda o Paraná... O dinheiro que Requião afirma ter financiado a campanha de Beto Richa ao governo paranaense, em 2002, saiu das contas da DM Construtora de Obras, empreiteira do empresário Darci Fantin. De cozinha industrial para empreiteira de obras públicas, a DM começou a crescer no final do governo do tucano José Richa – já falecido – para tomar, tempos depois e por vias terceiras, da concorrente CR Almeida um contrato para a execução da obra de Salto Segredo, no Paraná. Cecílio do Rego Almeida, o nada diplomático dono da CR Almeida, recebeu do governo do Paraná, depois de longa briga na Justiça, a pequena fortuna de R$ 100 milhões a título de indenização. Fantin, para quem não se recorda, foi incluído no primeiro relatório da CPI do Banestado, mas contou com a poderosa agenda de Armando Mellão, preso pela Polícia Federal por sob a acusação de envolvimento nos imundos bastidores da CPI. E mais: a relatoria da CPI do Banestado coube ao deputado federal José Mentor (PT-SP), inexplicavelmente reeleito em outubro passado. (Foto: revistacapital.com.br)

Surdez de conveniência
Que a porção lenhosa da face humana é presença quase que constante no mundo da política, todos sabem, mas alguns abusam do assunto por ocasião de determinadas declarações. Entrevistado pela sempre necessária rádio Jovem Pan, nesta terça-feira de Carnaval, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, disse que não foi vaiado no sambódromo paulistano, durante a abertura dos desfiles de Carnaval. O alarido da troça foi tamanho, que até os protagonistas do constrangimento imposto ao prefeito perceberam o excesso. Na passarela do samba, Kassab pagou o preço por ter chamado de vagabundo um manifestante que resolveu protestar, dias atrás, durante a inauguração de um posto de saúde municipal. (Foto: gpbrasil.com.br)

A tal da urgência
Não bastasse o superfaturamento nas obras de maquiagem do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, a Infraero estuda a possibilidade de reformar a pista do aeródromo paulistano sem a devida e necessária concorrência. De acordo com o presidente da estatal de infra-estrutura aeroportuária, José Carlos Pereira, o importante no momento é “ganhar tempo”. Pereira espera um parecer do Tribunal de Contas da União para acrescentar um aditivo ao contrato que a Infraero firmou com a empreiteira OAS, responsável pelas obras em Congonhas. Acontece que o mesmo TCU está analisando detalhadamente o desvio de R$ 100 milhões na reforma do aeroporto da capital paulista.

Mãos ao alto
Mais uma batida de carteira aterrissa nos lares brasileiros. Por determinação do Departamento Nacional de Trânsito, o sempre burocrático Denatran, o uso de engates automotivos dependia de adequações dos equipamentos, os quais tinham, inicialmente, ó último dia 26 de janeiro como prazo final. Depois de muita polêmica, idas e vindas, o caso dos engates de automóveis ficou para depois de julho. Até lá, as montadoras terão de informar quais veículos têm capacidade técnica de ter o acessório instalado. Resta saber quem ressarcirá os usuários de engate que correram para legalizar o equipamento. É bom lembrar que truque semelhante ocorreu por ocasião do kit de primeiros socorros.

Quanto riso...
Pensando bem, num carnaval chamado Brasil, a ala do samba tupiniquim tem 180 milhões de palhaços.

Bola dentro
(20/02/06) - Alguns supostamente bem informados garantem que a participação do marqueteiro João Santana na campanha à reeleição de Luiz Inácio da Silva, o presidente Lula, ainda não é certa. Assessores ministeriais, muito ligados ao Palácio do Planalto, dizem exatamente o contrário. Santana está com a vaga mais do que garantida, sendo que a atual peregrinação presidencial pelo Brasil, que tem influenciado as recentes pesquisas de opinião tem o dedo do publicitário soteropolitano. Sanatana, ex-sócio de Duda Mendonça, o enganador que embrulhou Lula para presente, também é adepto de contas bancárias no exterior. Enfim, resta concluir que a política, como outras tantas coisas na vida, também é cíclica e repetitiva.

Ucho Haddad

ucho@ucho.info

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