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ano 6 - número 1294
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007
Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício
"A pessoa sábia não desce pelo caminho da morte, mas sobe pela estrada da vida."
Rei Salomão
 
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Vida dura
Enquanto o Brasil patina no marasmo patrocinado pelo Palácio do Planalto, com sucessivos adiamentos de decisões importantes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encontra tempo para participar de festinhas de cabeleireiro. Em sua última edição, a revista Veja traz reportagem sobre a vista do presidente Lula ao cabeleireiro da estrelas, Wanderley Nunes, que também cuida das madeixas da primeira-dama Marisa Letícia. Um tratamento capilar completo, porém corriqueiro, com Wanderley Nunes, no mais elegante shopping center tupiniquim, o Iguatemi, custa, em média, R$ 350 e demora duas horas e meia. No contraponto, um reles trabalhador – que certamente despejou voto no presidente Lula – demora trinta suados dias para receber R$ 350. Resumindo, quem nunca comeu mel, quando come se lambuza. E mais: ao presidente Lula falta uma competente assessoria de marketing. Quem vai à casa de um amigo com tanta intimidade, como faz o casal Lula da Silva na residência de Wanderley Nunes, pode levar os primeiros a não pagarem pelos serviços do segundo, até porque ao Studio W (é o nome do salão de Wanderley Nunes) interessa clientes de tal naipe.

Pé no freio
“Cautela”. Foi o que cobrou o presidente Lula dos dirigentes dos onze partidos que formam a base de apoio ao governo federal, ao analisarem as propostas de combate à violência no País, que devem ir à votação ainda esta semana no Congresso. O presidente Lula tem consciência do risco que tal discussão leva ao Palácio do Planalto, pois na festa da posse, em 1º de janeiro passado, a onda de criminalidade que assola o Rio de Janeiro foi tratada como terrorismo. E terrorismo se enfrenta com outro tipo de ação, e não com cinco centenas de policiais que carecem de treinamento e não sabem como empunhar uma arma de fogo. (Foto: abc.es)

Saia justa
Ainda a criminalidade... Dependendo de como o tema for tratado pelos parlamentares, a luz vermelha do Palácio do Planalto pode acender. Para enfrentar a falta de vagas no sistema penitenciário, o governo Lula acenou, tempos atrás, com a possibilidade de flexibilização da Lei de Crimes Hediondos. Isso colocaria na rua, em muito menos tempo do que o previsto, criminosos de alta periculosidade e sem a devida recuperação social. Logo depois de chegar ao poder, ainda em 2003, o ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça), falando em nome do presidente Lula, prometeu entregar, até o fim do primeiro mandato, seis presídios federais de segurança máxima. Entregou dois, sendo que um não funciona por falta de autorização ambiental. Para finalizar, o principal fator motivador da onda de crimes que assola o País é o tráfico de drogas. E combatê-lo exige maior patrulhamento das fronteiras brasileiras, o que não acontece porque as Farc seriam prejudicadas. (Ilustração: Cássio Scavone, o genial Manga)

Malha fina
A aprovação do projeto da Super Receita, que une as Secretarias da Receita Federal e da Receita Previdenciária, foi comemorada com largueza pelo Palácio do Planalto e pelos ministros da área econômica. Se por um lado o estreitamento da via da sonegação vai render aos cofres públicos uma maior arrecadação, por outro pode levar um sem fim de empresas, que postergam o pagamento de tributos ou sonegam por questões de sobrevivência, à bancarrota. Resta saber se a contrapartida acontecerá um dia, pois até agora foram séculos de promessas.

Drible na lei
Para fugir da inconstitucionalidade de utilizar recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, o miserável FGTS, nos investimentos previstos no PAC, o governo do presidente Lula encontrou uma saída. O ministro Guido Mantega (Fazenda) tenta transferir para a Caixa Econômica Federal a responsabilidade de garantir aos investidores um mínimo de rendimento: o índice da inflação acrescido de 3% de juros anuais. Fossem as promessas do PAC literalmente viáveis, e sem nenhum viés chavista, Lula teria exigido que a responsabilidade pela remuneração do investimento do trabalhador fosse garantida pelo Tesouro Nacional. Mas não, querem o mico bem longe.

É o fim
Com a irreversível proximidade do Carnaval, o ministro da Defesa, Waldir Pires, disse que tem esperança que novos problemas não venham a ocorrer nos aeroportos brasileiros durante a folia de Momo, a exemplo do que aconteceu às vésperas do último Natal. É bom lembrar que desde o trágico acidente com o Boeing da Gol, a aviação comercial brasileira vem sendo vítima da inoperância do governo federal, que não investiu no controle do tráfego aéreo. Por outro lado, a um ministro da Defesa não cabe ter esperanças, por força da responsabilidade, mas certezas.

Fantasia de ladrão
Um dia, alguém ousou dizer que o Carnaval era uma festa popular, condição que ainda ostenta no calendário atual. Se no passado essa condição de ser uma manifestação popular foi uma rápida e grande verdade, nos dias de hoje o samba-enredo é bem diferente. Quem analisa o Carnaval pela ótica tributária, logo percebe que a maior folia quem faz é o governo federal, ao taxar todos os apetrechos vendidos nessa época do ano. Para se ter uma idéia do descalabro, a carga tributária que o Rei Momo esconde gira entre 40% e 50%. Desde ingressos para os sambódromos até o confete do salão.

Sem saída
Luiz Inácio da Silva, o presidente Lula, está cada vez mais refém do PMDB, partido que um dia foi padrão de oposição política. Nas conversas que tem mantido com representantes do partido, Lula já admite entregar a pasta da Justiça ao deputado Michel Temer (PMDB-SP), o que controlaria a ala rebelde dos peemedebistas. Atual presidente da sigla, Temer entregaria o bastão partidário para o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, o advogado Nelson Jobim. O Ministério da Justiça foi, um dia, objeto do desejo de Jobim.

Esqueceram de mim
No quesito memória curta, o brasileiro volta a mandar para as raias do esquecimento um episódio importante, e que até hoje não foi solucionado. Reconduzido recentemente à presidência do Sebrae, o doador universal Paulo Okamotto, que pagou contas pessoais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, continua devendo explicações à sociedade. Sem renda oficial suficiente para honrar a pendência financeira do companheiro Lula, Okamotto alegou que pagou a dívida com dinheiro vivo, sacado de sua conta bancária. Lula, por sua vez, negou que o companheiro da década de 70 tenha quitado junto ao PT uma dívida no valor de R$ 29.436,26. As CPIs que investigavam o caso acabaram e o assunto simplesmente foi sepultado. Em outras palavras, o Brasil é um picadeiro com 180 milhões de arlequins.

Brincadeira tem hora
Enquanto a criminalidade toma conta do Rio de Janeiro, a Força Nacional de Segurança continua fazendo o papel de fantoche palaciano. Desde que chegou aos domínios fluminenses, a tropa federal pouco ou nada fez. Ontem, terça-feira (13/2), dois oficiais da Força Nacional participaram de uma operação conjunta das polícias Civil e Militar do Rio, que invadiram uma favela do Complexo do Alemão, na zona norte da Cidade Maravilhosa. Os dois oficiais apenas acompanharam a operação, o que deve acontecer com o restante da tropa nos próximos dias. Só falta o presidente Lula explicar desde quando a polícia fluminense carece de babás?

Gazeteiros palacianos
Na reunião realizada na Câmara dos Deputados, nesta terça-feira (13/2), para discutir o Plano de Aceleração do Crescimento, o PAC, evento que contou com a participação dos ministros Guido Mantega (Fazenda), Dilma Rousseff (Casa Civil) e Paulo Bernardo da Silva (Planejamento), sobraram bizarrices discursivas. Abusando do economês e falando para uma platéia que pouco entendia de Economia, o deputado Ciro Gomes mostrou-se como lobo em pele de cordeiro. Sem criticar diretamente o governo FHC – que merece ser criticado – Ciro Gomes desfiou um conhecimento que não usou quando foi ministro da Fazenda, cargo ocupado de maneira quase meteórica durante o governo Itamar Franco. Se Ciro Gomes fosse tão bom quanto ele próprio anuncia, a economia brasileira estava solucionada desde então. (Foto: Terra)

Para inglês ver
Presidente da Câmara dos Deputados, o petista Arlindo Chinaglia considerou “extremamente agressivos” os termos utilizados pela revista britânica The Economist, que em recente reportagem comparou o parlamento brasileiro a um "chiqueiro". Chinaglia foi aconselhado pela assessoria da Câmara a interpelar os responsáveis pela publicação, mas o parlamentar quer uma nova avaliação sobre o acaso, podendo, inclusive, optar por uma ação judicial. Afirmar que a Câmara dos Deputados é um chiqueiro pode ser um exagero editorial, mas o fato é que o mensalão foi um verdadeiro mar de lama.

Pau mandado
Com a base aliada completamente encabrestada, por conta da distribuição de cargos nos mais diversos escalões do governo federal, o Palácio do Planalto terá tranqüilidade na aprovação de assuntos de seu interesse, caso a oposição não reaja à altura. Sob a ameaça de descontar o ponto dos faltosos, Chinaglia, que agora voltou a rezar a cartilha palaciana, vai fazer das votações em plenário um verdadeiro rolo compressor. Tem cheiro de chavismo no ar e ninguém percebeu.

Abismo político
Responsável pela análise e julgamento dos processos por quebra de decoro parlamentar, o Conselho de Ética da Câmara define ainda esta semana o nome do novo presidente. Parte dos conselheiros quer reeleger o atual presidente, Ricardo Izar (PTB-SP), mas o PT está de olho na vaga. E para tal tem dois postulantes ao cargo: os deputados José Eduardo Martins Cardozo (SP) e Jorge Bittar (RJ). O que já era um tribunal de exceção pode acabar como clube da "companheirada". E mais: um petista no comando do Conselho de Ética é tudo o que o deputado cassado José Dirceu, ou comandante Daniel, precisa em seu projeto de anistia política.

Deserto do Saara
Pensando bem, depois de tanto confete por parte dos aliados, a Câmara foi palco para o PAC. Plano de Antecipação do Carnaval.

Fim do mundo
(14/02/06) - Como faz quase que regularmente, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, ocupou, dias atrás, uma das mesas do restaurante do hotel onde vive, em Brasília, para tratar de assuntos ministeriais. Em companhia de um de seus assessores e rodeado por uma infinidade de papéis, Bernardo decidia, em voz alta, qual cidade brasileira receberia dinheiro da Pasta. Esse prefeito recebe tanto, aquele tanto... Como se o planejamento de um país com dimensões continentais como o Brasil fosse assunto para mesa de boteco ou restaurante.

Ucho Haddad

ucho@ucho.info

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EDITORA SENAC SÃO PAULO

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