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ano 6 - número 1290
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007
Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício
"Governar é a arte de criar problemas cujas soluções mantenham a população em suspense."
Ezra Pound
 
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Mentiras no ar
A mais nova mentira do mundo da aviação rondou os domínios da Justiça. Antes mesmo de o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (São Paulo) suspender uma decisão judicial que proibia determinados modelos de aeronaves de operarem a partir do aeroporto de Congonhas, na capital paulista, alguns bravateiros profissionais – e bem remunerados, diga-se de passagem – espalharam a notícia que a decisão teve o dedo da Tam, uma vez que a companhia opera com aviões que escaparam da proibição, agora suspensa. Na verdade, proibir o pouso e decolagem, em Congonhas, de qualquer Airbus (319 ou 320) seria arrumar sérios problemas com o Palácio do Planalto. Congonhas é o aeroporto predileto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto o avião presidencial é um Airbus 319. Os vôos do Aerolula poderiam ser transferidos para o aeroporto de Guarulhos (Cumbica), pois até São Bernardo do Campo o presidente seguiria de helicóptero. Acontece que com o tempo fechado, Lula seria obrigado a atravessar a maior cidade do País e enfrentar um trânsito infernal. Só isso! (Foto: airteamimages.com)

Cego em tiroteio
Como antecipou a coluna, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles – era tucano de carteirinha – está sob intenso fogo cruzado. O motivo da artilharia na direção de Meirelles, que teve direito a desmentidos inclusive do ministro Guido Mantega (Fazenda), seria a queda lenta dos juros, mas há outros motivos, muitos de ordem política, por trás dos ataques. Reduzir juros abruptamente, como querem alguns ministros – Luiz Marinho (Trabalho) é um deles – traria ao País uma situação de risco. Mesmo com a classificação do Brasil como um porto quase seguro para investimentos, são os juros no atual patamar que atraem o dinheiro do investidor estrangeiro. Uma queda nos juros provocaria uma fuga de capitais, o que proporcionaria dificuldades para o fechamento diário do caixa tupiniquim. Manter os juros nas atuais taxas não gera empregos, mas reduzi-las pode patrocinar desemprego. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Teste final
Imaginar que o Brasil é o melhor dos eldorados para os investidores internacionais é irresponsabilidade idêntica a acreditar que cegonha e Papai Noel existem. Uma prova de que o capitalismo internacional ainda não crê piamente na economia brasileira foi dada pelo governo Bush, que ofereceu ao presidente Lula uma aproximação político-econômica com a Casa Branca, que deve ser analisada com calma. Se corresponder ao flerte de Bush, o presidente brasileiro cairá em desgraça com a onda bolivariana que emana do Palácio Miraflores, sede do governo venezuelano. Caso discorde do presidente George W. Bush, Lula pode colocar o Brasil na rota do desespero, pois a simples possibilidade de um repeteco do que ocorre na vizinha Venezuela seria o suficiente para o dinheiro estrangeiro dar adeus.

Grana preta
Na verdade, o calvário de Henrique Meirelles pode ter nome e sobrenome, como noticiamos ontem. Fazer do deputado José Múcio Monteiro o novo líder do governo na Câmara pode parecer uma sandice política – afinal foi o presidente do PTB (Roberto Jefferson) que denunciou o mensalão – mas em termos de negócio tem suas mais douras explicações. A família Queiroz Monteiro, que durante anos controlou o agora liquidado Banco Mercantil de Pernambuco, quer reaver US$ 500 milhões, dinheiro bloqueado pelo Banco Central, presidido por Meirelles. Coincidência ou não, José Múcio Monteiro é primo do deputado federal Armando Monteiro Neto, que por sua vez é filho de Armando Monteiro Filho, que presidiu durante mais de duas décadas o Mercantil de Pernambuco. Ou seja, no clube prive de negócios alguns negociam em família.

Pilha fraca
Se existem no mundo seres de face lenhosa, o ministro Tarso Genro é um deles. Há duas semanas, na versão original da “Mensagem ao Partido”, o gaúcho Genro afirmou que “o PT viveu uma crise de corrupção ética e programática”. É fato que aquele que faz da escrita uma profissão precisa saber o significado da maioria das palavras, mas a porção bizarra de algumas situações nos obriga a consultas aos bons dicionários. No Houaiss, preciso dicionário da língua portuguesa, corrupção tem o seguinte significado: “depravação de hábitos, costumes, devassidão”. Já a palavra ética significa, por extensão do sentido, “conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa e moral de um indivíduo, de um grupo social ou de uma sociedade”. Já o adjetivo programático surge ao lado do seguinte significado: “relativo a programa”. (Foto: AFP)

Cara lavada
Ainda Tarso Genro... A nova versão da “Mensagem ao Partido” não cita a refundação do PT e nem mesmo concede espaço aos inúmeros casos de corrupção. Tal situação leva a crer que os petistas, em processo de auto-enganação, acreditam que não houve corrupção, que não roubaram. São, sim, éticos e honestos. Antes que seja tarde, é bom que alguém explique ao ministro Tarso Genro (Relações Institucionais) que corrupção ética é uma utopia discursiva, pois os vernáculos têm significados diametralmente antagônicos. Por outro lado, se a corrupção foi programática, pode-se dizer que o crime foi premeditado. E o presidente Lula, como sempre, de nada sabia.

Pedra no caminho
José Dirceu de Oliveira e Silva, o comandante Daniel, continua sonhando com a anistia política para voltar a dar as cartas oficialmente e na linha de frente, mas uma série de empecilhos recheia o seu caminho. Muito preocupado com a possibilidade de aprovação do projeto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva trabalha intensamente nos bastidores para que isso não ocorra. Do contrário, enfrentará situações difíceis e quase incontornáveis. Aprovada no Congresso, a concessão de anistia dependerá de sanção presidencial, como noticiamos na edição de ontem. Acontece que Lula só avançou politicamente porque passou pela prancheta de José Dirceu. E o ex-ministro sabe muito além do que alguns gostariam. E mais: participe do Programa Anistia Zero, movimento popular, de iniciativa da coluna, contra a concessão de anistia a José Dirceu e outros cassados. Clique no banner localizado na coluna à direita.

Gás de sobra
Quem pensa que José Dirceu de Oliveira e Silva, o Pedro Caroço dos tempos plúmbeos, está sem força política, engana-se. Antes que a escolha do novo líder do PT na Câmara desembarcasse em uma acirrada disputa, o partido dos outrora barbudinhos decidiu pelo nome do deputado Luiz Sérgio (RJ), que substituirá o gaúcho Henrique Fontana. Luiz Sérgio é integrante do chamado Campo Majoritário e intimamente ligado a José Dirceu. Daqui a um ano, o substituto de Luiz Sérgio será o deputado pernambucano Maurício Rands. Também ligado a José Dirceu e membro do Campo Majoritário, Rands faz política elegantemente. Bem distinta da forma chicaneira a que alguns companheiros estão acostumados.

Quem dá mais?
Tão logo assumiu a presidência da Câmara, o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) insistiu na tese de que a Casa legislativa é a maior representação popular do País. No campo da teoria isso é uma grande e incontestável verdade, mas na prática a realidade é outra. Estivesse certo o deputado Chinaglia, os políticos não teriam perdido a quarta-feira discutindo o comando das Comissões permanentes. Em número de vinte, as Comissões são distribuídas aos partidos de maior representação na Câmara dos Deputados. De foice, essa briga pelo poder transcende os interesses de uma sociedade vilipendiada diuturnamente em seus direitos.

Pelo avesso
Para se entender o que de tão errado pode acontecer nas Comissões Permanentes da Câmara, basta pesquisar sobre assuntos como o que tratou dos ingredientes da fórmula da Coca-Cola, o refrigerante mais vendido do planeta, e que o consumidor vai continuar sem saber a verdade, pois os processos que tramitavam na Comissão de Defesa do Consumidor foram arquivados. De igual maneira, os processos relativos à Coca-Cola que tramitavam em vários ministérios também foram mandados para o arquivo. Outro processo mandado para o arquivo da Câmara foi o que tratava da cobrança da Taxa de Abertura de Crédito, a famigerada TAC. Como banqueiros são querubins poderosos e endinheirados, e o universo da Coca-Cola é emoção pra valer...

Raspando o tacho
Enquanto a sociedade e a imprensa, principalmente, brincam com a galhofa de que o PMDB desempenha mais uma vez o papel de noiva da política nacional, o partido, que um dia fez oposição de gente grande, se refestela em cargos e indicações. O bloco político formado pelo PMDB e PT – e outros seis partidos pequenos – terá o direito regimental de presidir onze das vinte Comissões Permanentes da Câmara dos Deputados. Na outra ponta do poder, o PMDB continua mergulhado nos altos cargos diretivos dos Correios, empresa de excelência reconhecida e que carece muito mais de técnicos do que de politiqueiros despreparados. Mas, abandonada pela sociedade, a política tem dessas coisas inexplicáveis.

Balcão de negócios
Os políticos mostraram celeridade quando se sentiram prejudicados. Foi assim no caso do aumento salarial dos parlamentares, como também na redistribuição da verba destinada aos partidos. Com a recente decisão da Justiça, que redividiu o dinheiro público destinado às agremiações políticas, os chamados partidos grandes perderam parte da verba a que tinham direito, enquanto os pequenos e nanicos festejaram a reviravolta. O contribuinte é assaltado anualmente em R$ 126 milhões, dinheiro que deveria servir para melhorar a representação popular no parlamento. Acontece que essa dinheirama serve, como sempre, para manter o exclusivo e privado clube de negócios em que se transformou o Congresso.

Dinheiro é solução
Há uma enorme dicotomia nos discursos advindos do Partido dos Trabalhadores. Quando eclodiu a crise do mensalão, o PT, sob a égide de uma farsa encomendada, foi obrigado a reconhecer que a agremiação política passava por dificuldades financeiras. Até mesmo um documento com a assinatura do agora deputado José Genoíno foi apresentado, na tentativa de provar que o dinheiro arrancado dos bancos – Rural e BMG - era proveniente de empréstimos. Até agora, as duas instituições financeiras não se deram ao trabalho de cobrar o PT. Passado algum tempo, o PT lançou um novo modelo de cueca, que vem recheado com US$ 300 mil. Mais tarde surge com R$ 1,75 milhão para comprar um dossiê contra candidatos tucanos, sendo que a verdadeira origem do dinheiro continua um mistério. No último sábado, o PT se reuniu em um luxuoso hotel em São Roque, cidade próxima a São Paulo, o que mostra que dinheiro não é problema para o partido. Para completar a farsa, o PT promove no próximo final de semana – sexta e sábado –, em Salvador, uma festa para comemorar os vinte e sete anos de fundação do partido. Com direito a banquete e outros detalhes nababescos. Coisas de quem enfrenta sérios problemas financeiros.

Ética, qual ética?
No mundo moderno dos negócios, plantar notícias – verdadeiras ou não – transformou-se em uma ferramenta criminosamente necessária para o capitalismo, seara onde empresas minam o poder de fogo da concorrência com inverdades e fofocas. E por tudo o que temos visto nos últimos tempos, este é um cenário freqüentado por homens-avião e moleques de recado oportunistas. Não faz muito tempo, o representante de um conhecido e polêmico banqueiro começou a freqüentar as redações com o intuito de publicar inverdades contra desafetos do patrão. Tendo o insucesso e o fracasso como companheiros, o estafeta criminoso decidiu pedir ajuda a profissionais da área de comunicação. No bolso do colete a bagatela de R$ 50 mil mensais para disseminar mentiras. São tantas emoções!

Caixa de ferramentas
Pensando bem, para que a esquerdista briga de foice pelo poder seja completa, só está faltando o martelo.

Chumbo grosso
(08/02/06) - O tempo está cada vez mais quente para o lado da binacional Itaipu. Soraya Garcia, ex-caixa 2 do PT de Londirna, que depõe hoje na CPI dos Bingos, prometeu contar tudo o que sabe sobre o chamado dinheiro não contabilizado do Partido dos Trabalhadores da cidade paranaense. Responsável por administrar o dinheiro sujo da campanha de reeleição de Nedson Michelletti à prefeitura de Londrina, Soraya vai confirmar durante seu depoimento que Itaipu contribuiu oficiosa e financeiramente com o partido, por ocasião da eleição municipal de 2004. Apenas para lembrar, em depoimento à Polícia Federal, Soraya Garcia creditou a Paulo Bernardo, atual ministro do Planejamento, e Gilberto Carvalho, responsável pela Secretaria da Presidência da República, a responsabilidade pelo abastecimento do caixa 2 do PT londrinense. Clique e confira os principais trechos do bombástico depoimento de Soraya Garcia à PF.

Ucho Haddad

ucho@ucho.info

EDITORA SENAC SÃO PAULO
PARCEIROS
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