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ano 6 - número 1235

terça-feira, 31 de outubro de 2006

Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício

UH Comunicação Ilimitada

 
   
 
"A esperança não é um sonho, mas uma maneira de traduzir os sonhos em realidades."
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Léon Joseph Suenen

   
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Esqueceram de mim
Reeleito, Luiz Inácio Lula da Silva está vivendo o que jamais imaginou: um ostracismo político sem precedentes. Tão logo Geraldo Alckmin reconheceu sua derrota, Lula improvisou uma coletiva de imprensa e falou aos principais veículos de comunicação do Brasil e do mundo. Diferentemente do que ocorreu após a vitória de 2002, Lula, desta vez, precisou da companhia de seus ministros e outros aduladores para não deixar o local vazio. O PT já faz parte do passado, e nem de longe é aquele partido que importância histórica teve na retomada da democracia. Para complicar ainda mais a situação do presidente, no palanque da vitória, montado na avenida Paulista, Lula contou com a companhia de mensaleiros e desconhecidos. E mais: a seus pés, no asfalto do centro financeiro do País, pouco menos do que mil militantes. Ou seja, o fim chegou e Lula ainda não sabe. (Foto: radiometropole.com.br)

Direita volver!
Perguntado sobre o futuro da imprensa, durante o debate da TV Record, Lula disse que era um produto da chamada liberdade de imprensa. No primeiro discurso pós-vitória, Lula afirmou aos jornalistas presentes que, daquele momento em diante, daria “uma canseira de coletivas”. Como sempre, entre o discurso e a realidade existe uma enorme distância, mas o que ocorreu em Brasília, nesta segunda-feira, é um prenúncio do que o brasileiro deve esperar. A chegada de Lula na Base Aérea de Brasília foi marcada pela truculência de alguns militantes petistas e funcionários do Palácio do Planalto. Além de covardemente agredidos, jornalistas foram ameaçados, como forma de poupar o presidente Lula de perguntas sobre o mensalão e o fatídico Dossiê Cuiabá. Para o presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Sérgio Murilo, a culpa foi da imprensa. No mínimo estranho, uma vez que a Fenaj existe para defender os interesses dos jornalistas, e não para poupar um Ali Babá qualquer.

Anos de chumbo
Não bastasse a bizarrice de sua declaração, o presidente da Fenaj anunciou que convocará uma reunião da entidade para retomar a discussão sobre a criação do Conselho Federal de Jornalismo. Catarinense e petista convicto, Sérgio Murilo acredita que se o tal Conselho já existisse, “a imprensa não teria feito uma cobertura das eleições como fez”. Na opinião de Murilo, a cobertura das eleições feita pela imprensa foi tendenciosa e perseguiu o presidente-candidato Lula. Se fato isso aconteceu, que o presidente da Fenaj explique que tipo de cobertura foi aquela feita durante o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Ou será que tendenciosas são apenas as coberturas que denunciam as falcatruas petistas?

Operação abafa
Com o fim da disputa presidencial, o caso do Dossiê Cuiabá deve perder força, podendo, inclusive, cair no esquecimento popular, uma vez que foi exaustivamente explorado durante a campanha. De qualquer maneira, Lula deve uma explicação aos pobres que ele tanto faz questão de mencionar em seus populistas discursos, pois R$ 1,75 milhão é o sonho de muitos ricos. Lula tem declarado que seu governo não manda para debaixo do tapete as sujeiras políticas, mas esse é o tipo do caso que certamente terá destino semelhante. Principalmente porque, dependo do resultado das investigações, sua candidatura pode ser impugnada.

Barrado no baile
A tese da impugnação da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva,
lançada em primeira mão pela coluna, começa a fazer eco nos corredores da Justiça Eleitoral. Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o ministro Marco Aurélio Mello, depois de um longo e obsequioso silêncio, já começa a admitir a possibilidade de cassação do registro da candidatura petista, o que impediria o presidente Lula de tomar posse em janeiro. Trata-se de uma decisão polêmica, que requer uma excessiva dose de coragem, mas, adotada, será o estrito cumprimento da lei. Enquanto isso não acontece, assessores palacianos – ministros inclusos – tratam de arrumar, cada vez mais, a cena do crime, com o objetivo de complicar o trabalho da Polícia Federal. (Foto: clubemundo.com.br)

Nova pista
O dinheiro do dossiê – a parte em Reais – pode ter origem no mínimo inusitada. Segundo apurou a coluna, em trabalho que vem desenvolvendo desde o anúncio do escândalo, as cintas de papel que envolviam os pacotes de Reais têm uma explicação lógica e logística. O dinheiro apreendido com petistas em um hotel da capital paulista teria saído do sistema de transporte público do Rio de Janeiro, para, em seguida, ser trocado com banqueiros do bicho, como forma de apagar as pegadas criminosas da operação. Confirmada a origem do dinheiro, a Polícia Federal estará a um passo de prender o criminoso oportunista que arquitetou a confusão, o qual, nos últimos tempos, tem recusado a chance de ver o nascer do sol de maneira geometricamente distinta.

Calou por quê?
Entre tantos escândalos que pontearam seu primeiro governo, Luiz Inácio da Silva, o presidente Lula, tem uma enorme dívida com a sociedade. Há meses, o mais polêmico banqueiro tupiniquim, o “Tantas” (a Justiça ainda nos impede de citar seu nome), forneceu à revista Veja documentos sobre supostas contas bancárias de petistas ilustres no exterior, entre eles o próprio presidente Lula. A Polícia Federal foi acionada, e o único ouvido até agora foi o jornalista Márcio Aith, profissional com larga experiência e trajetória ilibada. É de se estranhar, e muito, o fato de o caso ter sido desconsiderado pelo Palácio do Planalto, uma vez que o presidente Lula tem dito, repetidas vezes, que seu governo manda para a cadeia aqueles que estão em desacordo com a lei. E se falsa denúncia de crime não é motivo para prisão, não há razão para prender o padeiro mineiro que disse ter sacado parte do dinheiro que seria utilizado na compra do dossiê.

Maracutaia esquecida
Outro assunto que aguarda explicação é o conjunto de empréstimos concedidos pelos bancos Rural e BMG ao Partido dos Trabalhadores, revelados por ocasião da CPI Mista dos Correios. Na verdade, os tais empréstimos, concedidos para não serem pagos, serviram apenas esquentar o dinheiro sem origem que Delúbio Soares e Marcos Valério movimentaram durante o período do mensalão. Tanto é assim, que Duda Mendonça, marqueteiro responsável pela campanha de 2002, confirmou ter recebido parte dos honorários em uma conta no exterior. A CPI prometeu rastrear o tal pagamento, mas acordos de coxia impediram a ação. O que mostra que os banqueiros continuam com aquela conhecida sana viperina em relação do dinheiro. E pensar que o PT pediu um empréstimo e não pagou é conversa para uma manada inteira dormir.

Cabelo na testa
Sócio majoritário da verdade e oráculo do Senhor, o ex-ministro e deputado federal eleito Ciro Gomes colocou a vitrola para funcionar. No último domingo, antes de votar, Ciro Gomes disse que “em caso de reeleição do presidente Lula, o povo brasileiro estará dando uma lição muito clara para todos os políticos. Para aqueles que o presidente lidera, acho que a Nação está dizendo com clareza que confia neles, mas quer que ele (Lula) lidere um conjunto importante de transformações neste possível segundo mandato”. Ciro disse ainda que considerou um risco tremendo ao País o fato de Geraldo Alckmin ter levado a corrida presidencial para o segundo turno. O bom da democracia está no fato de livre ser a manifestação do pensamento, desde que vedado o anonimato, mas há palavras que poderiam levar seus donos ao hospício. Até porque, o mensalão recebido pelo chefe de gabinete do ex-ministro da Integração Nacional ainda não foi explicado.

Sol quadrado
Ex-ministro da Fazenda, o agora deputado eleito Antonio Palocci Filho (PT)tomou um susto ao ser informado que o Ministério Público paulista sugeriu uma pena de duzentos e vinte e cinco anos de prisão, por seu envolvimento no desvio de dinheiro público durante o período em que esteve à frente da prefeitura de Ribeirão Preto. O esquema fraudulento tinha em uma das pontas a empreiteira Leão e Leão, empresa local que abrigou durante bom tempo o ex-assessor de Palocci, Rogério Buratti. O mais intrigante é entender como um reles ministro consegue dinheiro suficiente para pagar os honorários de um advogado José Roberto Batocchio, um dos mais renomados do País. Provavelmente porque Papai Noel chega mais cedo na casa dos petistas.

Coisa de louco
Pífio e ridículo, o acordo firmado entre a Petrobras e o governo boliviano (leia-se YPFB) serviu apenas para camuflar uma operação política que está em marcha não é de hoje. Causou estranheza o fato do acordo ter sido anunciado horas antes do segundo turno, o que evidencia a tentativa de manipulação do imbróglio. Quem pensou que o governo boliviano daria um xeque-mate no Brasil abusou do devaneio, pois matar a galinha dos ovos de ouro seria uma sandice. A manobra, denunciada pelo editor coluna um dia após a expropriação dos ativos da Petrobras na Bolívia, serviu para a criação de um caixa 2 oficioso que irá financiar as decisões tomadas pelo Foro de São Paulo, encontro do socialismo latino-americano que muitos gauches negam existir. A coluna afirma: o tal Foro existe e está aí para o primeiro ousado que quiser conferir. E PT saudações!

Virando pó
É verdade que Fernando Henrique Cardoso está tentando evitar o esfacelamento do PSDB, mas a começar pelas declarações de alguns tucanos de fina plumagem, essa será uma missão extremamente difícil. Perguntado sobre a derrota tucana na corrida presidencial, o senador Arthur Virgílio (AM) respondeu: “Eu não sirvo para mãe de miss”, em clara demonstração de que o partido vive uma acirrada disputa interna. Já o presidente nacional do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), disse que Aécio e Serra “são incooptáveis”. Sobre o fato de alguns tucanos serem cooptáveis ou não é preciso lembrar que o partido caminha rumo a 2010 com problemas de sobra, pois Aécio Neves, José Serra e o próprio Geraldo Alckmin são candidatos naturais à presidência. Por outro lado, se Arthur Virgílio não tem vocação para ser mãe de miss, para pai de pugilista certamente tem. Até porque, o senador amazonense, um dito diplomata, disse certa vez que daria um murro na cara do presidente Lula.

Gardenal, o retorno
Em seu primeiro discurso após a vitória dominical, o reeleito Roberto Requião, que comandará o Paraná por mais quatro anos, atacou de maneira irresponsável a imprensa, rotulada pelo governador de parcial. Por conta das muitas denúncias que complicaram visivelmente sua campanha, Requião chamou de canalhas os jornalistas que divulgaram informações contundentes, como foi o caso do apartamento de Paris. O destempero requiniano é conhecido há muito, e algumas das considerações feitas pelo governador paranaense devem ser desconsideradas não por inconsistência, mas porque Requião é uma figura digna de pena. Porém governador, se canalhas são os jornalistas que denunciam barbaridades políticas, o que dizer de alguém que faz do Estado um cabide de empregos para duas dúzias de parentes, além de criar um pistoleiro fictício, obrigando a assumir a autoria de um crime que inexistiu? Tomara que a imprensa tenha vigor para lhe mostrar quem são os canalhas do Paraná. (Foto: Wikipedia)

Forno quente
Terminado o calor das eleições, o Congresso Nacional tem a obrigação moral de fazer aquilo que não fez durante o chamado recesso branco, período em que os parlamentares deixaram de trabalhar em função das campanhas eleitorais. Na pauta, além de tantas Medidas Provisórias e puros projetos que precisam ser votados, está a cassação do mandato do ainda deputado José Janene (PP-PR), acusado de ser um dos pivôs do escândalo do mensalão. Janene empurrou como e quanto quis o processo no Conselho de Ética da Câmara, mas agora, com o assunto dependendo de decisão do plenário, basta uma sessão para mandá-lo de volta para casa. Ou será que os deputados vão fechar esta legislatura com mais um a pizza?

Dúvida cruel
Pensando bem, o reeleito Lula já não sabe o que é melhor. Se só ou mal acompanhado.

Rei da cocada
(31/10/05) - Atualmente, o presidente Luiz Inácio tem uma certa ascendência sobre o STF. Dos onze ministros do tribunal, o ídolo maior do PT “controla” cinco deles. Em janeiro próximo, o ministro Carlos Velloso se aposenta por idade, cabendo ao inquilino do Palácio do Planalto indicar um substituto, o que daria ao Presidente da República uma folgada margem de manobra, caso seja reeleito, pois passaria a contar com a colaboração do raciocínio jurídico de seis dos onze ministros do STF. Porém, se Nelson Jobim emplacar seu sonho de ser vice-presidente na chapa do PT, deverá se aposentar e caberá ao presidente Luiz Inácio nova indicação. O que mostra que nos bastidores o PT não está tão morto como muitos imaginam.

Ucho Haddad

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