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ano 6 - número 1234

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício

UH Comunicação Ilimitada

 
   
 
"Aprende a viver e saberás morrer bem."
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Confúcio

   
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Os erros já eram
No discurso pós-eleitoral, quando deu explicações tão esdrúxulas quanto desnecessárias, Lula mostrou ao mundo que erros gramaticais em excesso não passaram de uma estratégia de campanha, que o aproximaram ainda mais dos nichos populares do eleitorado. Ontem, ao falar para jornalistas, Lula raríssimas vezes tropeçou nas concordâncias e conjugações gramaticais, situação que marcou seus últimos discursos de campanha e participações em debates. Em outras palavras, Lula foi novamente embrulhado pelo marketing para enganar. E se enganação foi o prato dominical, não poderia existir devaneio maior do que garantir que o Brasil crescerá anualmente na casa dos 5%. Real supervalorizado, carga tributária crescente, juros nas alturas e servilismo político só servem para o crescimento de um único setor da economia: o bancário. Até porque, a reeleição de Lula não foi decidida aqui no Brasil, mas no exterior, depois de um conchavo entre banqueiros brasileiros e internacionais. (Foto: imafotogaleria.com.br)

Osso duro
Passada a ressaca da vitória, Lula chega a Brasília com problemas de sobra e alguns nomes sobre a escrivaninha presidencial. Vencer a corrida rumo ao Palácio do Planalto custou caro, e o pagamento das faturas começa desde já. Na lista de ministeriáveis estão os seguintes nomes: Nelson Jobim, cotado para a Justiça; Delfim Netto, para a Agricultura; e Fernando Pimentel (ex-prefeito de Belo Horizonte), para a Fazenda, além de Marta Suplicy e Roseana Sarney, que a partir de 2007 devem estar na Esplanada dos Ministérios. Derrotada pelo pedetista Jackson Lago na disputa pelo governo do Maranhão, Roseana será contemplada com algum ministério, como forma de Lula agradecer pelo servilismo irresponsável do ex-presidente e senador reeleito José Sarney. Marta Suplicy, que recusou alas mais badaladas embaixadas brasileiras ao redor do planeta, pleiteia um Ministério de peso, até porque o gardelón Luis Favre não pode perder o viço.

Brincadeira tem hora
Ainda o discurso de improviso... Lula, posando novamente como Sassá Mutema planetário, lembrou o seu empenho para ajudar o governo senegalês, que, à época do pleito, enfrentava uma praga de gafanhotos que destruiu o milharal daquele país. Fazer se passar por um mensageiro dos pobres e oprimidos é politicamente correto, mas é preciso lembrar que enquanto os gafanhotos do Senegal se armavam para enfrentar uma ajuda de Lula que não vingou, a febre aftosa corroia o rebanho bovino brasileiro. Quando a inflação da cadeia alimentar deixar o campo e aterrissar nas grandes cidades, o que deve acontecer em meados de 2007, aí sim o brasileiro poderá mensurar o tamanho do estrago. A maior evidência do caos do campo é a drástica redução da área plantada.

Tucano sarará
Com a vitória garantida e faltando apurar os votos de poucas urnas, Lula, após telefonema do adversário Geraldo Alckmin, concedeu uma improvisada entrevista coletiva, que pôde ser interpretada como prenúncio do despreparo que virá pela frente. Depois de fazer da possibilidade de novas privatizações uma arma contra o tucano Alckmin, Lula anunciou que as Parcerias Público-Privadas, as fatídicas PPPs, estão prontas para serem implantadas. Isso mostra que privatizar de maneira camuflada é, também o desejo maior do governo Lula. O primeiro passo rumo às privatizações brancas será a entrega da BR 101 para a iniciativa privada. E pelo tamanho do negócio, não é difícil imaginar a extensão do “propinoduto” que está por vir.

Sonho postergado
Quando o marido Luiz Inácio Lula da Silva ainda engatinhava como presidente, a primeira-dama Marisa Letícia foi contemplada com a cidadania italiana, direito conquistado por sua ascendência família e que será repassada a filhos e netos. Nada de errado existe em pleitear a dupla cidadania, mas estranho foi o motivo alegado pela primeira-dama para sua decisão. “Quero um futuro melhor para meus filhos” justificou Marisa Letícia. Ora, se um futuro melhor está no Velho Mundo, e não aqui no Brasil, como propala o presidente Lula, Dona Marisa terá que adiar seu plano por mais quatro anos, obrigando-se a saborear o lado do bom do amanhã apenas nas viagens oficiais do marido-presidente à Itália.

Animal de campanha
Faltando poucos dias para o segundo turno, o escritor Paulo Coelho surgiu na telinha da campanha do presidente-candidato Luiz Inácio Lula da Silva, como se o povo, impregnado pelo analfabetismo que beneficia a classe política, soubesse quem é o escritor que deu as costas para o Brasil de maneira misteriosa. Endossar a roubalheira comunista, idêntica à que ocorreu na extinta União Soviética, é fácil demais para quem vive em Paris, alternando a vida entre a Brasserie Lip e o café literário Des Magaux. Não retornar ao Brasil deve ter motivos que ultrapassam a simples rejeição a um país que continua refém de desmandos políticos. Nos últimos dias, Lula disse, por duas vezes, que desde a chegada da expedição comandada por Pedro Álvares Cabral, os tucanos dominam o país, o que é uma sandice de alguém que insiste em fazer do Palácio do Planalto um boteco de esquina, onde mentiras e ilações são permitidas. Não se trata de minimizar a responsabilidade tucana por inúmeros atos que continuam sem explicação, mas esse Coelho que saiu da cartola petista poderá trazer problemas ao presidente Lula. E como o clima é de zoológico, só o Leão para explicar.

Na mosca
Entender resultados eleitorais é algo tão fácil, que muitas vezes torna-se uma intrincada batalha da compreensão. Para analisar os escaninhos eleitorais e de sua respectiva Justiça, o sempre genial Marcelo Kahns, um dos últimos redutos da cultura refinada deste País, discorre sobre a possibilidade de se votar no criador de Emília e do Visconde de Sabugosa, no artigo “Votei em Monteiro Lobato”. Como toda vitória sempre tem um derrotado culpado, o editor da coluna, Ucho Haddad, mostra no artigo “De quem é a culpa?”, um lado da história recente que pode ser responsabilizado pelos resultados deste domingo. Clique sobre o nomes dos colunistas e confira os respectivos artigos.

E agora?
A reeleição de Lula não pode, de maneira alguma, servir de mata-borrão para o escândalo do Dossiê Cuiabá. O falso depoimento de um padeiro que teria sacado R$ 250 mil utilizados pelos petistas presos em São Paulo é mais um capítulo da novela que tem como objetivo atrapalhar o trabalho dos policiais federais envolvidos na investigação. Porém, a exemplo do que ocorreu durante a CPI dos Correios, quando caros e famosos advogados foram contratados para defender os envolvidos no mensalão, os aloprados do dossiê contam com o conhecimento de renomados e nada baratos criminalistas. Hamilton Lacerda, provavelmente o mais aloprado dos envolvidos no escândalo, está sendo defendido por Alberto Toron, criminalista de currículo respeitável e conta bancária idem. E quem estará pagando os honorários do causídico?

Parada dura
As articulações políticas que já começam nesta segunda-feira, podem definir o grau de dificuldade que Lula terá de enfrentar para governar o Brasil a partir de 2007. Um dos primeiros a se encontrar com o presidente Lula é o também reeleito Luiz Henrique da Silveira, governador de Santa Catarina, que para conchavos mais ousados terá um enorme entrave na bagagem. O vice eleito, senador Leonel Pavan, é tucano de carteirinha e um ferrenho oposicionista do governo Lula. Isso mostra que ou o PSDB vai arrefecer o ânimo oposicionista, ou Luiz Henrique está morto politicamente. Resta esperar.

Fim de linha?
Pelo menos no campo da suposição, duas correntes políticas que vinham resistindo às ações do tempo acabaram se esfacelando. Em primeiro turno, o carlismo, corrente política dominada pelo senador Antonio Carlos Magalhães, saiu remendado do processo eleitoral que teve Jaques Wagner como vitorioso. Ter sido eleito não garante a Jaques Wagner um futuro político dos mais tranqüilos, pois o PT, mesmo com futuras alianças, não conseguiu maioria no legislativo baiano. E caberá ao petista não apenas apelar para todos os santos que protegem a Bahia, mas mostrar que é capaz a ponto de sonhar com o Palácio do Planalto. Já o “sarneysismo”, que tem no filho ilustre de Dona Kyola o seu comandante, sai trincado do processo eleitoral com a derrota de Roseana Sarney, que está com os dias contados no PFL. A derrocada política da família Sarney começou a ser desenhada nas eleições municipais de 2004, mas ninguém poderia imaginar que o projeto final ficaria pronto em tão pouco tempo. Porém, como o Maranhão ainda abriga em suas entranhas o ranço do coronelismo que tem a praia do Calhau como sede, Jackson Lago que se prepare, pois chumbo trocado é brincadeira de criança.

Briga de foice
Com a derrota de Geraldo Alckmin, o PSDB começa o ano de 2007 com três problemas. Aécio Neves, reeleito para governar Minas Gerais por mais quatro anos, José Serra, eleito para o Palácio dos Bandeirantes, e ex-governador Geraldo Alckmin são candidatos naturais para a disputa presidencial de 2010. Segundo declarou à coluna um assessor de Aécio Neves, o governador mineiro deve mesmo trocar o PSDB pelo PMDB, partido do avô Tancredo Neves, o que diminuiria o desconforto da saia justa do tucanato, que, em tese, terá de enfrentar a queda de braço entre Serra e Alckmin. Já o PT, que até então não tinha nomes para a sucessão do presidente Lula, agora conta com três aspirantes, o que não garante a vitória futura. São eles: Jaques Wagner, eleito governador da Bahia, Dilma Roussef, ministra-chefe da Casa Civil, e Marta Suplicy, ex-prefeita da capital paulista e coordenadora da campanha de Lula em São Paulo. Ou seja, está aberta a temporada de autofagia política.

Mudando de lado
Opostos pela ótica da geografia, o Pará e Rio Grande do Sul mudaram de lado sob o prisma político. Governado nos últimos anos por políticos tucanos, o Pará elegeu a petista Ana Júlia Carepa para comandar seu destino até dezembro de 2010. Com mandato de senadora até 2011, Ana Júlia Carepa teve o nome envolvido em um escândalo de doações financeiras ilegais feitas por madeireiros fora da lei. Já o Rio Grande do Sul, que assistiu à interrupção do petismo com a chegada do peemedebista Germano Rigotto ao Palácio Piratini, em 2002, agora será comandado pela tucana Yeda Crusius, a primeira mulher a governar o estado que conquistou a folclórica condição de ser um intransponível reduto de machistas. E a coluna, muito antes do início da campanha, foi o único veículo de comunicação que apostou na vitória de Yeda Crusius. No contraponto, vale destacar a precisão do Instituto Methodus, que sinalizou durante todo o tempo a vitória da candidata tucana.

Dinastia Gardenal
Soberana, a vontade popular, em especial a depositada nas urnas, quis que Roberto Requião continuasse gerenciando o destino do Paraná. Ao final da apuração, Requião venceu seu adversário, Osmar Dias, por uma diferença de apenas 10.579 votos, em uma das mais disputadas eleições da história. Se os eleitores de Lula concordaram com a continuidade da ação dos saltimbancos oficiais, o paranaense pediu para que o ambiente familiar em que foi transformado o Palácio Iguaçu permaneça. Considerado o mais escandaloso caso de nepotismo dos últimos tempos, a participação da família Requião no governo do Paraná já ultrapassa as vinte e cinco contratações. Abusando da desfaçatez, Roberto Requião negou qualquer tipo de envolvimento com Délcio Razera, o araponga que grampeava amigos e inimigos do Palácio Iguaçu. Razera, que durante anos a fio foi responsável pelos churrascos da Granja do Canguiri, continua mergulhado em obsequioso silêncio. Só não se sabe por quanto tempo.

Falta explicar
Mesmo reeleito, Roberto Requião deve ao povo paranaense no mínimo duas explicações, sendo que uma delas passa obrigatoriamente pelo porto de Paranaguá. A primeira delas versa sobre um milionário apartamento localizado na badalada porção sul de Miami Beach, nos EUA, que até bem pouco tempo era propriedade de Eduardo Requião, assunto revelado com exclusividade pela coluna, assim como as operações da Anna & Sons Corporation, empresa americana de propriedade de Ana Helena Mothé da Silva Duarte, cunhada do governador. Ana Helena, em recente declaração, alegou que o imóvel foi comprado em 1999, por meio de um financiamento concedido por um banco norte-americano. Ora, se os registros do governo da Florida apontam para uma quase inatividade da Anna & Sons, alguém precisa explicar como foi pago o tal financiamento. A segunda explicação tem como alvo um charmoso apartamento nos arredores de Paris, no qual o mandatário paranaense se livre do estresse provocado pelo cargo. E novamente o assunto foi revelado com antecedência aos leitores do ucho.info.

Sacristia eleitoral
Pensando bem, como cria de Golbery e sonhando em ter Delfim Netto como ministro, Lula só não pode estar à direita de Deus-Pai porque continua acreditando ser ele o único todo-poderoso.

Marcas X Poder
(31/10/05) - Há uma inexplicável relação de amor e ódio entre o poder e certas bebidas. Quando conquistou a cadeira mais importante do País, o então presidente Fernando Collor de Mello elegeu o escocês Logan como sendo o uísque da moda, para, tempos depois, cair no descrédito por conta da corrupção que o levou ao impeachment. À época, outras marcas conhecidas foram colocadas na berlinda da opinião pública, a exemplo do que ocorreu com as gravatas Hermés e os relógios Breitiling. Agora, com o dinheiro cubano enviado ao PT camuflado em caixas de bebida, vão para o descrédito o uísque Johnny Walker (rótulos vermelho e preto) e o rum Havana Club. Quando todos sabem que a bebida predileta do presidente Luiz Inácio é aquela água que passarinho não bebe.

Ucho Haddad

ucho@ucho.info

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