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ano 6 - número 1225

terça-feira, 17 de outubro de 2006

Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício

UH Comunicação Ilimitada

 
   
 
"Mentimos com a boca, mas os gestos denunciam a verdade."
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Sinuca de bico
Um dos melhores programas jornalísticos da televisão brasileira, o Roda Vida, da TV Cultura, levou ao ar nesta segunda-feira a entrevista com o presidente-candidato Luiz Inácio Lula da Silva, gravada no Palácio da Alvorada, em Brasília. Não fosse o comprometimento de um dos entrevistadores com o governo do PT, o Roda Viva com o presidente Lula teria sido uma excelente oportunidade de escolha para o eleitor indeciso. Questionado sobre a meteórica ascensão profissional de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, que tem a Telemar como sócia em sua empresa de jogos eletrônicos, Lula teve dificuldades para responder. O presidente disse que ele, sua mulher e o filho, assim como qualquer membro de sua família, estão sujeitos às regras da lei, a exemplo do que acontece com qualquer cidadão. Lula tentou escapar da pergunta, mas esqueceu que um de seus irmãos, Genival Inácio da Silva, o Vavá, atuou como lobista na Petrobras, na Caixa Econômica Federal e até mesmo no Palácio do Planalto. E ele, o presidente, como sempre não sabia. (Foto: radiometropole.com.br)

Saia justa
Visivelmente irritado com o questionamento sobre os negócios do filho, o presidente Lula lembrou que a Telemar é uma empresa privada, mas deu pouca – ou quase nenhuma – importância ao fato de o BNDES e alguns Fundos de Pensão serem acionistas da companhia. Lula pode até querer mascarar a verdade, mas alguns detalhes não deixam dúvidas sobre o lado bisonho da parceria Telemar-Lulinha. Quando foi criado, logo nos início do governo Lula, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, que ficou conhecido como Conselhão, tinha entre seus oitenta e dois conselheiros o presidente do grupo Telemar, Pedro Jereissati. Com a saída de Pedro Jereissati, a vaga foi ocupada por Carlos Jereissati Filho, também executivo do grupo empresarial. Ou seja, o Palácio do Planalto é o único lugar do mundo onde as coincidências não apenas acontecem, mas são absolutamente normais.

Fogo cruzado
“Levianas e fantasiosas”. Assim a Polícia Federal, em nota oficial, classificou as informações contidas na reportagem da revista Veja sobre o escândalo do Dossiê Cuiabá. A publicação afirma que Freud Godoy, o segurança do presidente Lula, encontrou com Gedimar Passos, na sede do órgão em São Paulo, fora do horário de expediente e sem autorização oficial. Tentar desqualificar a revista Veja não é novidade desde que Lula chegou ao poder. Todos os que contrariaram as vontades nada democráticas dos inquilinos palacianos sofreram as mais distintas represálias. O fato é que deixar de considerar a competência e a lisura profissional do jornalista Márcio Aith, autor da referida reportagem, é covardia. Dono de um caráter que dispensa reparos, Aith não chegou ao cargo que ocupa por ser um irresponsável que desconhece o significado da palavra ética. Mais: desde que publicou reportagem sobre supostas contas bancárias internacionais, creditadas a integrantes do governo Lula, inclusive ao próprio presidente, por um banqueiro trapalhão, Márcio Aith passou a freqüentar a alça de mira do Palácio do Planalto.

Abafa geral
Estender o prazo das investigações sobre o escândalo do dossiê deixa evidente que o Planalto insiste em fazer da Polícia Federal uma polícia de governo. Vítima de variados desmandos, a PF é uma instituição que reúne homens probos e profissionais altamente qualificados, sendo que a nota divulgada para contestar a reportagem pode não representar o pensamento de seus integrantes. A decisão sobre o caso só deve sair após as eleições, mas Lula deve estar ciente de que, mesmo eleito, pode não assumir por conta da verdade que está sendo diuturnamente abafada. Para dar a impressão que nada de amoral ocorre nos bastidores do poder, o ministro Márcio Thomaz Bastos negou qualquer interferência no processo. E, como sempre, voltou a utilizar o vernáculo causal. Por ocasião do Nildogate, o imbróglio da quebra do sigilo do caseiro Francenildo Costa, o ministro falou em nexo causal. Agora foi a vez da cadeia causal.

Escondendo o ouro
O presidente da CPI das Sanguessugas, deputado Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ), que esteve em Cuiabá nesta segunda-feira, revelou, após encontro com autoridades da Polícia Federal, que é criminosa a origem do dinheiro apreendido com petistas e que seria utilizado na compra do dossiê que supostamente incriminaria candidatos tucano. A informação, já confirmada oficialmente, tem detalhes que complicariam ainda mais o escândalo que abalou a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, ainda no primeiro turno. À coluna, um dos parlamentares da CPI, que estiveram na capital mato-grossense, revelou que o dinheiro do dossiê é originário do jogo do bicho. Caso fique provado que a ação beneficiaria a campanha do presidente Lula, sua candidatura passa a ter mais um motivo para ser impugnada. Além do escândalo em si, o envolvimento com o criminoso jogo do bicho, do qual o PT de Santo André já se valeu durante o período em que arrecadava propinas na cidade do ABC paulista.

Parlapatão oficial
Em um dos discursos do final de semana, Lula, o presidente-candidato, voltou a falar em “elite conservadora”, como forma de colocar o eleitorado contra seu adversário na corrida presidencial, o tucano Geraldo Alckmin. Se existe no Brasil essa tal elite conservadora, e deve existir, ela – a elite – foi nababescamente recompensada por Luiz Inácio da Silva, o presidente Lula. Não há nada mais bizarro e inconstitucional do que o chamado “crédito consignado”, criado para entupir, ainda mais, a já abarrotada cornucópia dos banqueiros nacionais. As maiores vítimas dessa invencionice financeira são os aposentados – um em cada três já caiu na armadilha – que agora sofrem para sobreviver com o que sobra do minguado benefício pago pela Previdência Social. As instituições financeiras gazeteiam juros reduzidos, mas são excessivamente altos considerando que o risco de não receber do governo federal é zero. Afinal, o valor do empréstimo vem descontado mensalmente na aposentadoria. Então, que elite conservadora é essa que o presidente Lula tanto ataca?

Promessa não é dívida
Quando ainda estava em campanha pela presidência, em 2002, o então candidato Lula prometeu criar 10 milhões de novos empregos em quatro anos, o que até agora não aconteceu. O programa Primeiro Emprego foi um fiasco, e até o Exército foi chamado para fazer do ingresso na área militar uma espécie de emprego de estréia. Agora, de olho em mais quatro anos de mandato, Lula, em seus programas eleitorais, anuncia que criou 7,5 milhões de empregos, sendo que 5,5, milhões são com carteira assinada, como se isso não fosse uma garantia prevista na CLT. É fato que FHC pouco fez para a geração de novos postos de trabalho, mas ninguém pediu para o petista prometer. De mais a mais, emprego sem carteira assinada é sub-emprego, e uma tremenda heresia na boca de um ex-sindicalista. Ou seja, Lula ainda deve 4,5 milhões de empregos. E se quiser cumprir o que prometeu, terá de criar 41 novos postos de trabalho por minuto, até 31 de dezembro.

Tropa de choque
Quem se espantou com a dedicação em tempo quase integral de vários ministros na campanha pela reeleição do presidente Lula, da missa não sabem nem mesmo a metade. Perto de mil funcionários comissionados do Banco do Brasil estariam mobilizados na campanha do presidente Lula em todo o País. Muitos pediram afastamento voluntário, mas outros estão fazendo campanha sem que seus superiores cobrem a presença no trabalho. E como o Brasil á terra do jeitinho, um grupo de mais criativo pediu licença por motivos de saúde. Provavelmente porque todos são doentes pelo imperador Dom Lula I.

Base de troca
Sindicatos e outras entidades de classe, em especial as que congregam servidores públicos, mobilizaram-se nos últimos dias para reforçar a campanha pela reeleição do presidente-candidato. Em troca, Lula, que diante do eleitor finge desconhecer essas manobras escusas, poderá anunciar alguns benefícios para as categorias envolvidas até o fim do segundo turno ou, então, se comprometer em atender, em um possível novo mandato, a uma lista de reivindicações, como o reajuste salarial. Outro instrumento de persuasão que está no embornal do Palácio do Planalto é a agilização do pagamento dos precatórios trabalhistas, assunto que agradaria à grande maioria do funcionalismo. Em outras palavras, o vale-tudo do passado, que Lula prometeu combater, está maior e mais encorpado.

Mudança radical
Mesmo com a inadequada verborragia do vice, Paulo Feijó, a tucana Yeda Crusius, que agora conta com o apoio do PMDB, deve mesmo ser a próxima inquilina do Palácio Piratini, sede do Executivo gaúcho. Caso o candidato petista Olívio Dutra, o Stalin de Bossoróca, não consiga um daqueles milagreiros que fazem chover no deserto, o machismo gaúcho, folclore nacional, deve se preparar para ver o poder de saias. A crescente possibilidade de vitória de Yeda Crusius, na qual a coluna apostou isoladamente desde antes do processo eleitoral, pode inaugurar uma nova fase no cenário político do Rio Grande, até agora governado por homens. Porém, é bom lembrar que as mulheres que fizeram a fama do Rio Grande do Sul sempre foram consideradas forasteiras na terra dos farroupilhas. Anita Garibaldi era catarinense. Dilma Roussef, ministra-chefe da Casa Civil, mineira. Ellen Gracie Northfleet, presidente do STF, carioca. Yeda Crusius, possível governadora, paulista. O que não significa que a banda feminina gaúcha careça de competência.

Azeite quente
Os recentes sobrevôos que o mais polêmico de todos os banqueiros tupiniquins, o “Tantas” (a Justiça ainda nos impede de citar seu nome), tem realizado sobre São Paulo podem causar estragos consideráveis na política local. Monitorado à distância por parte da entourage petista, Tantas teria desembarcado na Paulicéia Desvairada, dia desses, para vistas políticas que muitos rotulariam como “vampirescas”. O fato de a Polícia Federal estar buscando explicações para uma suposta, porém bisonha, aproximação entre o segurança presidencial Freud Godoy e o outrora mega-especulador Naji Nahas pode não ser uma mera coincidência. Especialistas no assunto garantiram à coluna que, até a eleição, a fervura sobe de qualquer maneira.

Pisando na bola
Acreditar que o Brasil vai bem, como alardeia o Palácio do Planalto, é uma sandice. A exemplo do que ocorreu em governos anteriores, Lula abusa da maquiagem oficial para mostrar um país que inexiste. Por outro lado, a recente história política mundial mostra que dificilmente quem está no poder não se reelege. E por aqui, a continuar assim, Lula corre o risco de ser reeleito para comandar o Brasil, com bem entender, por mais quatro anos. A oposição, que se derrotada sai da disputa com cacife político respeitável, errou em três momentos cruciais. O primeiro deles foi ter desacelerado as investigações sobre a morte de Celso Daniel, um crime comum com fortes pinceladas políticas, mas não um crime político como muitos quiseram acreditar. O segundo, e mais perigoso, foi concordar, por necessidade, com um final pífio e vergonhoso para a CPI do Banestado, cujo relatório poupou a bandidagem de ontem e de hoje. O último deles, e mais comprometedor, foi não ter pedido o impeachment do presidente Lula quando foi comprovado, pela CPI dos Correios, que Duda Mendonça recebeu parte de seus honorários pela campanha de 2002 em uma conta bancária no exterior. Daqui até o dia 29 de outubro, a única solução é bater cada vez mais.

Parou por quê?
Quem acredita que algo de extraordinário irá acontecer, ainda este ano, no âmbito parlamentar, deve mudar de idéia o quanto antes. Com a atual legislatura a caminho da sepultura, o Senado Federal e a Câmara dos Deputados aderiram ao chamado recesso branco, por conta da corrida presidencial e de algumas disputas para governos estaduais. A maioria dos parlamentares, que já poderia estar de volta à labuta, aproveita o ócio remunerado para cuidar de assuntos pessoais, pois visitas às bases eleitorais é a única coisa que não ocorre. E você, meu caro leitor, continue trabalhando com afinco, pois os salários de deputados e senadores serão regiamente pagos com o seu dinheiro.

Ócio emunerado
Encerrado o segundo turno das eleições, que acontece em 29 de outubro, o marasmo deve continuar por bom tempo. No dia 2 de novembro, a primeira quinta-feira pós-eleição, comemora-se o Dia de Finados. E emendar o feriado com o final de semana não será novidade. Com a pauta trancada por Medidas Provisórias e com comemorações eleitorais futuras das mais diversas, o Congresso deve retomar o trabalho no dia 7 de novembro, uma terça-feira. Como ninguém é de ferro, no dia 15 de novembro, uma quarta-feira, comemora-se a Proclamação da República, e a semana parlamentar estará perdida. Dias depois, em 20 de novembro, uma segunda-feira, Brasília, como tantas outras cidades brasileiras, comemora o Dia da Consciência Negra. Aí sim o Congresso retoma os trabalhos, na terça-feira (21), para, na segunda quinzena de dezembro, desacelerar por conta das comemorações de final de ano. O Natal, 25 de dezembro, e o Ano Novo, 1º de janeiro, caem na segunda-feira. Na seqüência chegam as tão merecidas férias e o Carnaval, que em 2007 acontece, em tese, de 16 (sexta-feira) a 21 de fevereiro (quarta-feira de Cinzas). Mas o Congresso só conseguirá ver os confetes parlamentares na segunda-feira, 26 de fevereiro. Isso se o Criador der uma mãozinha. Ou seja, o Brasil só retoma a marcha lenta no começo de março do próximo ano.

Filósofo tupiniquim
Pensando bem, para ser o Sócrates da modernidade, Lula só precisa da cidadania grega. Afinal, ele só sabe o que nada sabe.

Beco sem saída
(17/10/05) - Socialista convicto e fã incondicional do “castrismo”, o escritor português José Saramago disse, dia desses, em Portugal, que “o Brasil parou na área social”, numa clara e contundente crítica à inércia do presidente Luiz Inácio no setor. Depois, o presidente brasileiro teve de enfrentar o discurso do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, que disse ser “impossível combater a fome mundial sem antes eliminar a corrupção”. Assim, o presidente Luiz Inácio deve explicar a que país ele se refere quando diz, repetidas vezes em seus discursos, que tudo está às mil maravilhas.

Ucho Haddad

ucho@ucho.info

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