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ano 6 - número 1222

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício

UH Comunicação Ilimitada

 
   
 
"O prudente, pelo que passou e pelo que passa, julga o que há de passar."
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Miguel de Cervantes

   
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Barril de pólvora
Se o improviso discursivo do presidente Lula foi marcado pelo
despreparo, especialmente de 2003 para cá, algumas das expressões utilizadas no debate do último domingo ainda podem lhe trazer sérios problemas. “Delegado de porta de cadeia”, por exemplo, caiu como uma verdadeira bomba no meio policial, o que pode antecipar a elucidação do caso do Dossiê Cuiabá e, principalmente, a origem do dinheiro apreendido pela PF com emissários do Partido dos Trabalhadores. A decisão da PF de pedir a quebra do sigilo bancário de trinta corretoras e casas de câmbio não foi uma mera coincidência, mas um acaso também não foi. O fato é que na mira das autoridades que investigam o caso está uma casa de câmbio localizada no aeroporto de Blumenau, cidade onde viveu, até bem pouco tempo, Lurian Lula da Silva, a filha do presidente Luiz Inácio. E a quebra do sigilo de um telefone público ao lado da casa de câmbio pode trazer à tona assuntos que o próprio Palácio do Planalto já sabe e vem tentando abafar nos últimos dias. (Foto: clubemundo.com.br)

Fio da meada
Como o Planalto pediu ajuda ao governo dos EUA, na suposta tentativa de descobrir a origem do dinheiro, autoridades americanas decidiram também investigar o caso. Em poucas semanas descobriram que, em 12 de setembro, US$ 197 mil foram sacados em um banco na cidade de Miami. O que tem deixado o presidente Lula com a expressão facial carregada não é a possibilidade de uma derrota no segundo turno, mas o estrago que a divulgação do titular da tal conta provocaria. A coluna recebeu essas informações um dia após as eleições, ou seja, em 2 de outubro, sendo que autoridades brasileiras foram informadas sobre o assunto um ou dois dias antes. A notícia, que causou estragos consideráveis nas coxias palacianas, foi abafada de todas as maneiras, sendo que alguns assessores presidenciais foram incumbidos de desmentir a informação.

Fechando o cerco
A tese ora defendida pela Polícia Federal, de que o dinheiro do dossiê seria oriundo do jogo do bicho ou dos bingos, tem procedência de sobra. Considerando que parte do dinheiro foi sacada em Mato Grosso, não é impossível que João Arcanjo Ribeiro, o “Comendador”, tenha entrado no circuito para auxiliar velhos conhecidos. É preciso lembrar que muitos dos integrantes da turma de Santo André se valeram dos serviços do “Comendador” para lavar o dinheiro arrecadado com o esquema de corrupção implantado na cidade do ABC paulista. Já a tese de que parte do dinheiro veio dos bingos tem respaldo no fato de que a campanha de Lula, em 2002, recebeu dinheiro dos bingueiros, especialmente de alguns poderosos contraventores da capital paulista. E a criação da CPI dos Bingos não foi uma invencionice qualquer do mundo parlamentar.
(Foto: Diário de Cuiabá)

Fio trocado
Enquanto a origem do dinheiro do dossiê permanece sob um sepulcral silêncio, a mando do Palácio do Planalto, o candidato-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveita para atacar os adversários, alegando que os tucanos comandam o País desde o descobrimento. “Desde que Cabral pôs o pé aqui, eles governam (...) Governam desde as Capitanias Hereditárias até o Império. E até a República: Entra um e sai outro”, disse o presidente Lula durante comício em Guarulhos, cidade da Grande São Paulo que é comandada pelo também petista Elói Pietá. Isso mostra não apenas o nervosismo que tomou conta da campanha de Lula, como o seu já conhecido despreparo para discursos de improviso. É preciso lembrar que entre o Brasil de hoje e uma porta de fábrica da época da ditadura existe uma abissal diferença.

Memória curta
O que de fato marcou o debate entre os presidenciáveis, no último domingo, não foi a agressividade de Geraldo Alckmin, e nem mesmo o fato de Lula ter lido as perguntas preparadas por assessores, o que aconteceu também com os números e dados do seu próprio governo. O que chamou a atenção do eleitor foi a amnésia de ambos em relação a determinados assuntos. Eis os assuntos importantes que ficaram de fora do debate: 1 - A atuação de Ricardo Sérgio de Oliveira e Eduardo Jorge Caldas Pereira, durante a era FHC. 2 - A privatização das teles e a repentina viagem de Mendonça de Barros à Espanha. 3 - A bisonha sociedade da filha de José Serra com a irmã do banqueiro opportunista “Tantas” – a Justiça ainda nos impede de citar seu verdadeiro nome). 4 - os vestidos da ex-primeira-dama Lu Alckmin. 5 - A contribuição financeira do Palácio dos Bandeirantes à revista do acupunturista do ex-governador Alckmin. 6 - O caso Celso Daniel. 7 - O caso Toninho do PT. 8 - Os R$ 8 milhões pagos por uma empresa de telefonia a um conhecido advogado de Brasília, que repentinamente passou a defender um alto integrante do governo Lula. 9 - As contas do presidente pagas pelo doador universal da República, Paulo Okamotto. 10 - A meteórica e milionária ascensão profissional de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, o ex-monitor de zoológico que se transformou em um bem sucedido empresário de jogos eletrônicos. 11 - As estripulias do lobista Vavá, irmão do presidente Lula. 12 - As doações financeiras feitas por empresários de bingo à campanha petista de 2002. 13 - A atuação da Ong Onda 13, que em Santa Catarina recebeu dinheiro de bingueiros. 14 - A retaliação sofrida pelos delegados federais que prenderam o galista Duda Mendonça. 15 - Os milhões de Reais que apareceram na conta bancária da empresa do vice José Alencar, dinheiro que saiu do esquema de Marcos Valério. 16 - A farra que um dos filhos de Lula promoveu no Palácio da Alvorada, com o dinheiro público. 17 - A tentativa fracassada de compra de um dossiê contra José Serra em 2004. 18 - Uma conta da primeira-filha Lurian, paga pelo amigo Paulo Okamotto.

Mistério mineiro
Depois de dizer que o candidato tucano Geraldo Alckmin privatizaria empresas estatais (Petrobras, Banco do Brasil, Caixa e Correios) o PT convocou sua militância em campo para espalhar, o máximo possível, de boatos sobre o adversário petista. Verdadeiros suicidas políticos, esses militantes têm se dedicado a divulgar temas pela Internet nem sempre verdadeiros, sendo que alguns poucos merecem credibilidade. No contraponto, se Geraldo Alckmin, a exemplo do que tem pregado a coluna, deve explicações à população sobre determinados assuntos, alguém precisa elucidar um mistério. Durante a partida do Brasil contra a seleção de gana, pela Copa do Mundo da Alemanha, um avião do governo federal foi sorrateiramente para Belo Horizonte. Enquanto os brasileiros sofriam diante dos milhões de televisores espalhados pelo País, alguém do governo mantinha um secreto encontro com Marcos Valério Fernandes de Souza, o homem do mensalão.

Curto-circuito
Quando deixou os estúdios da Band, em São Paulo, logo após o debate, Lula ainda teve tempo de bater boca com seus assessores e colaboradores de campanha, os quais ficaram literalmente a pé, sendo que muitos se valeram dos táxis que ficam estacionados à porta da emissora de televisão. No entrevero discursivo que teve com os assessores, Lula mostrou ao mundo um pouco do cotidiano presidencial, que, via de regra, requer um mínimo de protocolo. Confira abaixo o deselegante diálogo que o presidente Lula manteve com assessores, registrado por um funcionário da Band, ainda nos corredores da emissora.

Lula: Tão satisfeitos?
Homem: Foi muito bem, presidente!
Lula: Bem é o caralho! Foi nessa merda que vocês me meteram, tão satisfeitos?
Voz de mulher (possivelmente Marta Suplicy): Calma presidente, você se saiu muito bem.
Lula: Se eu me estrepar, vai todo mundo se fuder junto!

Chumbo trocado
Embora a CPI das Sanguessugas tenha se transformado em um ringue onde a oposição e a situação se digladiam, sabe-se que foram realizados oitenta e sete saques acima de R$ 100 mil por alguns dos suspeitos de envolvimento no caso do Dossiê Cuiabá. O segurança da primeira-dama Marisa Letícia e amigo pessoal do presidente Lula, Freud Godoy, teria feito um saque estranho no valor de R$ 150 mil. Mais: os três mosqueteiros da CPI – os agora inseparáveis deputados Fernando Gabeira, Júlio Delgado e Carlos Sampaio – andam e decidem tudo em conjunto, para desespero dos acusados.

Engana, o povo gosta
Durante o debate do último domingo, Lula afirmou com excessiva dose de certeza que seu governo jamais impediu a criação de uma CPI, ao questionar seu adversário por ter barrado na Assembléia Legislativa algumas dezenas de Comissões Parlamentares de Inquérito. Alckmin deve, sim, prestar contas de seus atos e, se necessário for, ser duramente punido. O que não se pode admitir é o presidente Lula abusar das falácias, pois é de conhecimento público que a ida de Paulo Okamotto à CPI dos Bingos sofreu todo tipo de impedimento por parte da tropa de choque do governo, assim como aconteceu com a possível convocação de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, um dos filhos do Presidente da República. Para reforçar o mentiroso discurso presidencial, o presidente da CPI das Sanguessugas, deputado Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ), aproveitou a ausência de parlamentares da base governista e encerrou a sessão desta terça-feira para evitar que convocações fossem aprovadas. Pois então, presidente, como é que ficamos?

Trocando a fantasia
Cassado pelos escândalos de corrupção que marcaram seu governo, o mais novo fã do presidente Lula, o senador eleito Fernando Collor de Mello, está de malas prontas para outro partido. Eleito pelo nanico PRTB, depois de longos anos de abstinência política, Collor deve desembarcar nos próximos dias no PTB de Roberto Jefferson. Vale lembrar que Jefferson foi um ferrenho integrante da tropa de choque do então presidente Collor no Congresso, e mais recentemente lhe coube a tarefa de denunciar a corrupção advinda do mensalão, que culminou com a cassação do mandato do ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu. Apenas para que fatos importantes não sejam esquecidos, Lula disse, por ocasião das denúncias, que Roberto Jefferson entregaria um cheque assinado e em branco. Clique e ouça o que Lula disse em entrevista, tempos atrás, sobre o ex-presidente e senador eleito Fernando Collor. (Foto: Terra)

Fôlego extra
A possível expulsão da senadora Roseana Sarney do PFL, que deveria acontecer nos próximos dias, foi adiada. A cúpula do partido decidiu deixar o assunto para a última semana de campanha, o que pode complicar e muito a vida da candidata ao governo do Maranhão. Roseana corre o risco de ter a candidatura impugnada, uma vez que descumpriu o que determina a legislação eleitoral em termos de verticalização. Por outro lado, um detalhe interessante tem marcado a campanha da senadora maranhense, que pretende mais uma vez governar seu estado natal. Gravado pela cantora Alcione, também maranhense, o jingle da campanha pede para Roseana volte para mudar o Maranhão. Não se trata de desdenhar da competência e do talento incontestáveis de Alcione, a “Marrom”, mas a única coisa que não tem acontecido no Maranhão desde que o clã Sarney passou a dominar a política local é mudança. Enfim, enganar o povo é algo que se faz até com música. Clique e ouça o jingle da campanha de Roseana Sarney.

Ponte-aérea
Ex-prefeito de Curitiba e eleito deputado federal na bacia das almas, Cássio Taniguchi é o mais novo e assíduo freqüentador da agenda diária de José Roberto Arruda, que a partir de 2007 governará o Distrito Federal. Tendo conquistado 67.821 votos nas urnas paranaenses, Taniguchi está cotado para ser um dos mais influentes consultores de Arruda no GDF. Tanto é assim, que as cabines policiais que Curitiba ostentou durante bom tempo devem, em breve, desembarcar em Brasília. Só falta Cássio Taniguchi recomendar ao próximo governador do DF algumas agências de publicidade que atuaram de maneira canhestra em Curitiba.

Mico na mão
Aterrissou na mesa do prefeito de Foz do Iguaçu, Paulo Mac Donald, um ofício do Ministério do Turismo informando que foram rejeitadas as contas do Festival de Humor da cidade. Junto com o documento ministerial chegou, anexo, um DARF para que o alcaide devolva aos cofres da União a bagatela de R$ 214 mil, dinheiro que teve como um dos grandes beneficiários o cartunista Ziraldo. Um dos responsáveis pelo evento, Rogério Bonatto, que enfrenta diversas ações judiciais por conta do imbróglio humorístico, agora integra o quadro da administração municipal de Foz de Iguaçu. Em outras palavras, tudo combinado.

Mais uma
A mais recente novidade que recheia o controverso caso do acidente com o Boeing 737-800 da Gol dá conta que os pilotos da Legacy, até então considerados culpados, podem não ter alterado a altitude do vôo, a partir de Brasília, em virtude de um intenso nevoeiro. Se o plano de vôo previa que o Legacy voasse a 38 mil pés após passar pela capital federal, a torre de controle de Brasília deveria ter informado desde o início das investigações, e não insistir em teses controversas que só serviram para tumultuar ainda mais o caso.Proibidos pelas autoridades brasileiras de deixar o país, os americanos que conduziam o jato produzido pela Embraer podem, em breve, retornar aos EUA. A informação foi dada pelo ministro da Defesa, Valdir Pires, que há dias os chamou de levianos. O fato é que essa história está conturbada, pois um acidente aéreo, por piro que seja, não tem elementos suficientes para tamanha especulação.
(Foto: Irfan Kaliskan)

Questão de escolha
Pensando bem, no Brasil é melhor ser delegado de porta de cadeia do que sindicalista de porta de boteco.

Ziquizira oficial
(11/10/05) - Como sempre, o presidente Luiz Inácio tropeçou na verborragia. Em discurso durante o anúncio da construção de quarenta e dois novos navios petroleiros, no Rio de Janeiro, o presidente rotulou os maus presságios dos oposicionistas de urucubaca. A palavra foi tão inadequada pelo momento e pela pompa da cerimônia, que até a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) abaixou a cabeça. Para quem não se recorda, urucubaca, cuja base etimológica é o urubu, significa má sorte no que se faz ou se intenta, de acordo com o dicionário Houaiss. Na verdade, a urucubaca está “fulanizada” em Luiz Inácio Lula da Silva, que prometeu criar 10 milhões de empregos e criou menos da metade, que fechou os olhos para a corrupção e que, mesmo sabendo de tudo, diz não saber de nada. Pode existir urucubaca maior?

Ucho Haddad

ucho@ucho.info

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