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Estandarte da árdua esperança inteligível

Patriota contumaz, ex-Secretário Nacional da Cultura dispara sua coerência contra a elite cultural brasileira, acostumada a viver nababescamente sob a égide dos cofres do Estado.

Ucho Haddad

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Destilando conhecimento e cultura que transcendem, com folga, os elevados padrões da massa pensante do país, Ipojuca Pontes faz do seu ideário a mais lógica arma de oposição ao Estado. Como todo pensador, Ipojuca Pontes carrega atrás de si verdadeiras multidões de favoráveis e contrários, mas a incerteza que emoldura o futuro político do país tem feito seu pensamento, coerente e verdadeiro, conquistar, cada vez mais, adeptos e simpatizantes. No contraponto dos seguidores que conquista, Ipojuca Pontes expõe a falência do Estado, especialmente quando revela de maneira crítica o uso da pirotecnia oficial como instrumento para ludibriar a opinião pública.

Jornalista e cineasta desde o início dos anos 60, o paraibano Ipojuca Pontes teve, como de fato ainda tem, uma larga e importante participação na vida política e cultural do país, que teve início com a cobertura jornalística do fogo revolucionário das Ligas Camponesas de Francisco Julião, em Pernambuco e na Paraíba. O primeiro patamar da consagração e do reconhecimento foi alcançado com a realização do documentário “Os Homens do Caranguejo”, produção cinematográfica pioneira sobre a miséria predominante nas áreas ribeirinhas do Nordeste brasileiro, obra que conquistou prêmios nacionais e internacionais. Em sua passagem pela Secretaria de Cultura Nacional, tentou eliminar o vínculo rançoso que a ditadura militar estabeleceu com a Nova República de José Sarney, tendo como objetivo maior o fim das benesses oficiais que empanturrou, durante décadas, a chamada elite cultural brasileira.

Autor de cinco livros (“Cultura e Desenvolvimento”, “Cinema Cativo”, “Brasil Filmes S.A.” e “Politicamente Corretíssimos”) e tendo produzido e dirigido diversos filmes, entre eles “Os Homens do Caranguejo”, “Canudos”, “Poética Popular”, “Cidades Históricas”, “Rendeiras do Nordeste”, “Portrait of Vaquero”, “A Volta do Filho Pródigo” e “Pedro Mico”, Ipojuca Pontes analisa, nesta Entrevista do Sábado, as pretensões do governo Lula com a adoção de meios de controle da livre manifestação do pensamento, situação fortemente evidenciada na tentativa de criação do Conselho Federal de Jornalismo e da Agência Nacional de Cinema e Audiovisual.

U.H. - Diferentemente do discurso de mais de duas décadas, o PT vem, lenta e continuamente, implementando o seu projeto político que, entre outras coisas, prevê a perpetuação do poder. O senhor acha que controlar a imprensa e o meio artístico, especificamente o cinema e o audiovisual, pode ser um sinal de que o projeto está em marcha?

Ipojuca Pontes - Como tenho escrito com alguma insistência, todo o projeto totalitário do PT está delineado claramente nos documentos do Foro de São Paulo, criado por Fidel Castro e a elite petista, em junho de 1990, com o objetivo de “recriar na América Latina o que foi perdido na Rússia e no Leste Europeu”. São palavras do próprio Castro que, por sua vez, segue religiosamente a cartilha de Lênin, que transformou o Partido Bolchevique, entre 1908 e 1917, para fins da tomada do poder totalitário, numa “secção de assalto”, com direito a ações terroristas, “expropriações”, fraudes, mentiras, qualquer tipo de crime, em suma, previsto no código civil. Na prática, onde o partido totalitário tomou conta do poder, usou e depois calou a imprensa, só permitindo a informação oficial veiculada em jornais tipo Pravda, Granma, etc.

Para utilizar o cinema como instrumento de propaganda e lavagem cerebral, Lênin, um sujeito frio e calculista, chegou a escrever que o “cinema era a mais importante de todas as artes”, visto que queria induzir a mente da população analfabeta. Lênin e Stalin, em especial, usaram o cinema como instrumento da mais completa mistificação. Mas o “novo homem” da revolução russa terminou na “ralé branca” da Era Brejnev. Ou no “barquero” de Cuba, um tipo humano cuja única saída é enfrentar o mar do Caribe.

No Brasil, onde o cinema está nas mãos do Estado, ele será um agregado para a propaganda política e ideológica – alias, já é. De fato, no Brasil o cinema não é mais arte ou lazer, mas, sim um instrumento de denúncia social e propaganda ideológica esquerdista, visto que vive, salvo exceções, para o combate estratégico do “neoliberalismo”, um fantasma, naturalmente, pois o Brasil é um país de economia estatizada - como o próprio cinema, de resto.

U.H. – No tocante à imprensa, a proposta de criação do Conselho Federal de Jornalismo foi combatida de forma muito mais consistente do que a criação da Ancinav, mas os resultados para o setor do cinema e do audiovisual foram rápidos e evidentes. Ao que o senhor atribui essa falta de pegada no universo brasileiro da imprensa?

Ipojuca Pontes - Há uma avaliação precipitada na pergunta: de fato, nem Lula, em que pese falar em liberdade de expressão, retirou o projeto da AFJ da tramitação no Congresso, nem muito menos o projeto da Ancinav (que pode até trocar de nome) mudou um centímetro nos seus objetivos básicos, tramados em Havana e delineados por uma burocracia estatizante, totalitária e esquerdista. Dependendo da reação da imprensa “burguesa”, é mais fácil o projeto do CFJ cair no vazio do que não sair, tal como o governo deseja, o projeto da Ancinav. Por um motivo irrecorrível: no jornalismo, não se tem ainda o patrão único. No cinema, sim: o único patrão é o Estado. Então, com o dinheiro do contribuinte, o PT no poder pretende e parece que vai impor o modelo totalitário. Além do mais, de forma equivocada, os partidos de oposição acham a questão menor.

U.H. – Lamentavelmente, a discussão sobre a Ancinav acabou reunindo pessoas que, há anos, se beneficiam de verbas oficiais. Recentemente, o cineasta Cacá Diegues, durante audiência na Câmara, disse que a intenção do governo e do ministro Gil não é de interferir no cinema brasileiro, mas de passar um cheque em branco para o futuro. O que o senhor pensa da declaração?

Ipojuca Pontes - Desde que o Estado tomou conta do cinema como fonte única de financiamento, no final dos anos 60 (com a criação da Embrafilme, filha do AI-5), há uma briga de foice latente no interior do cinema brasileiro. O grupo do Cinema Novo, mais azeitado política e ideologicamente, tem a prioridade das benesses, usufruindo grande parte das verbas públicas. Os filmes que produzem, grosso modo, são muito ruins, mas os seus membros são articulados internacionalmente e formaram, para fins hegemônicos - com a ajuda de setores acadêmicos e de professores universitários estreitos, sistemáticos e obscuros -, uma bibliografia crítica tão irreal e mentirosa quanto abundante, sem falar na manipulação dos cadernos culturais, na imprensa cotidiana, de vassalagem inconteste e ponto de apoio permanente.

Internamente, o conflito da Ancinav é velho, embora camuflado pelo anseio de criação de regras mais ortodoxas e intervencionistas. Não poderia ser de outro modo: o garoto que tirou um precário curso de cinema na UFRJ, embora alinhado politicamente, não compreende porque Cacá Diegues, um cineasta medíocre, mas “cultivado” (e cultivador) pela mídia, levando periodicamente milhões de reais para fazer filmes perfeitamente dispensáveis – e ele, jovem cineasta talentoso, não tenha recurso nenhum ou apenas conte com recursos parcos.

A raiz do conflito da Ancinav encontra-se na divisão do bolo, com os emergentes descentralizados gritando por mais recursos, que só podem ser repassados com a mudança de regras e ampliação de fundos impositivos. Mas para cineastas como Diegues, desde que não se toque nos seus privilégios, o barco pode correr para onde o governo apontar, embora diga o contrário. É sempre bom lembrar que, no auge da ditadura militar, o grupo do Cinema Novo detinha o controle da Embrafilme, considerada uma célula do Partido Comunista. A coisa só desandou quando Collor, depois de eleito, compreendeu a natureza perversa do sistema e tentou cortar o cordão umbilical que alimentava a cornucópia.

Mas é evidente que o governo Lula quer controlar o “imaginário da nação”, isto é, quer estabelecer, antes, o controle político e ideológico do aparelho do Estado e pensa que, cooptando com mais verbas o pessoal do cinema, construirá mais rápido o corredor para chegar ao projeto totalitário tramado pelo Foro de São Paulo. Se eu fosse chegado a Lula, e descobrisse nele uma nesga de bom senso, diria a ele que o investimento não vale a pena. É muito dinheiro tirado do suor do povo brasileiro para pouco resultado “transformador”. Essa elite artística, de resto, foi silenciosamente escorraçada dos seus privilégios por Fidel Castro, em Cuba, já que o ditador não produz hoje mais do que dois filmes por ano, e esmagada por Gorbachev, que, durante a Perestroika, varreu da Goskino (a Embrafilme russa), a “nomenklatura” do cinema.

No longo prazo, todavia, se o projeto totalitário vingar, Lula e seus seguidores serão forçados a investir bilhões em segurança, propaganda informação e contra-informação – e neste caso a Ancinav simplesmente se transformará num instrumento de controle e opressão da sociedade, capaz de sufocar a própria corporação do cinema, tal como ocorreu na URSS de Stalin (vide o drama de Eisenstein, Pudovkin e outros) e ocorre em Cuba.

 

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