Mestre-sala da oposição política nacional
Reconhecido defensor dos interesses populares, ex-secretário de Fazenda do Paraná não poupa nem o próprio partido para fazer críticas ao governo Lula e escancarar os impropérios palacianos Ucho Haddad
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Paranaense de Cambé, cidade que comandou como prefeito, e ex-secretário da Fazenda do Paraná, o economista Luiz Carlos Hauly, eleito onze vezes consecutivas pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar da Câmara dos Deputados (Diap) como um dos melhores parlamentares brasileiros, o que lhe confere o status de membro da elite do Congresso Nacional, é dono de uma coerência oposicionista admirável. Profundo conhecedor das causas econômicas, pelas quais luta de forma ferrenha na condição de defensor do povo brasileiro, Luiz Carlos Hauly faz, nessa Entrevista do Sábado, uma análise do governo Lula e suas mazelas, sem deixar de lado os erros cometidos pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, seu companheiro de partido.
Sempre munido de números, matéria prima do universo em que gravita, Luiz Carlos Hauly mostra, provocadora e claramente, que o governo Lula nada mais é do que uma continuação remendada da administração FHC, sendo que o atual ocupante do Palácio do Planalto peca ao manipular o inconsciente coletivo com informações que não traduzem a realidade do país. Ciente de que fazer é um ato de responsabilidade e bom senso, Luiz Carlos Hauly não hesita em contrariar o próprio partido para defender seus pensamentos e ideologias, como fez em relação à concessão do status de ministro ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.
Ucho Haddad - O governo Lula chega ao fim da primeira metade, sem que a maior parte das promessas de campanha tenha sido cumprida. O senhor acredita que o prometido deve ser cumprido na sua segunda metade do governo ou, como admite o próprio Partido dos Trabalhadores, foi um engodo planejado para o PT chegar ao poder?
Luiz Carlos Hauly - O PT se preparou para ganhar as eleições, e ganhou. Tinha um projeto de poder, mas não tinha um de governo. Não se pode dizer que existe de fato um projeto de governo, pois não há um plano “B” ou alternativo para a economia do país, até por uma razão muito óbvia: quando se fala de esquerda ou direita, não existe diferença na boa conduta na administração dos recursos públicos. Ou o governo tem bons gestores capacitados e honestos, ou não tem. E a minha opinião se refere à macroeconomia do país. Quanto aos programas de governo, o presidente Lula apenas alterou os rótulos dos programas sociais criados no governo Fernando Henrique Cardoso. Por exemplo, o Bolsa Escola se transformou no Bolsa Família, e assim sucessivamente, sempre na categoria de “Bolsas”. De igual maneira, o ProUni é uma extensão do Profae, Programa de Financiamento do Estudante, aliado a uma tese de minha autoria que preconiza a utilização dos tributos de responsabilidade das universidades e faculdades do país para serem transformados em instrumento de financiamento aos estudantes brasileiros, além de uma obrigatoriedade maior das entidades filantrópicas na concessão de bolsas de estudo. Resumindo, na saúde impera o caos, na educação não há nenhuma novidade, na área social, como disse anteriormente, os programas só mudaram de rótulo. O Programa de Erradicação de Trabalho Infantil – Peti, por exemplo, está sendo irresponsavelmente sepultado pelo governo Lula. No âmbito da infra-estrutura nada foi feito para melhorar a situação das estradas, e nos portos e aeroportos não se fez absolutamente nada além do que já vinha sendo feito pelo governo anterior, ou seja, o presidente Lula apenas deu prosseguimento às obras que recebeu quando de sua posse. No que tange ao setor elétrico também nada foi feito, pois todos os projetos estão barrados pelo Ibama, e, mais uma vez, o discurso do presidente Lula está calcado no que vinha sendo executado pelo governo FHC. Na área de telefonia a privatização do setor ocorreu no governo anterior, o que tem proporcionado uma contínua ampliação de ofertas nos segmentos de telefones fixos e móveis, que de outra maneira passou a ser um ônus nas despesas das famílias que anteriormente não contavam com tal gasto. Na área tributária nada aconteceu, se não o aumento dos impostos, enquanto na área previdenciária o presidente Lula simplesmente traiu os funcionários públicos, os quais ele prometeu defender durante a campanha presidencial. No sistema financeiro Lula dizia que a liquidação dos bancos no Proer era uma vergonha, mas agora o mesmo Lula silencia diante do escândalo do Banco Santos. Tal situação mostra que nada mudou, e o Banco Central de hoje continua o mesmo de ontem, mudando apenas o gerente de plantão, sendo que as práticas são as mesmas, não existindo a preocupação com ações preventivas. O resumo do governo Lula é um governo que vive de publicidade, de uma boa mídia.
U.H. - Quando da vitória das urnas, o então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva encontrou uma situação favorável para qualquer evolução positiva de sua administração, situação esta provocada pelo temor do mercado pela chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder. É possível pensar nesta direção ou o senhor tem uma visão distinta do quadro político-econômico daquela época?
Hauly - O presidente Lula recebeu o país em condições razoáveis, o que não significa que era satisfatória, mas era assim no passado, quando assumiu o presidente Fernando Henrique Cardoso, e continua sendo como tal. As dúvidas que existiam sobre Lula e o Partido dos Trabalhadores já se dissiparam, o que me levou a promover junto às oposições e a vários segmentos da sociedade a idéia de conceder a ambos – Lula e PT – o prêmio Adam Smith por conta da condução da economia brasileira. Na minha opinião, aquela fase do temor e da expectativa já passou, e conseqüentemente o presidente Lula continua aumentando cada vez mais a arrecadação, batendo recordes, mês após mês. A arrecadação tributária de 2004, na esfera do governo federal, teve um aumento real de aproximadamente R$ 30 bilhões, o que corresponde a 2% do Produto Interno Bruto.
U.H. - No primeiro ano do governo Lula a situação econômica do país chegou a um ponto que, posteriormente, qualquer movimento positivo proporcionaria condições para comemorações por parte do Palácio do Planalto. O senhor acredita que os avanços foram proporcionais às comemorações que temos assistido?
Hauly - Como em 2003 o crescimento foi inicialmente negativo, para depois ser reajustado pelo IBGE para uma taxa de meio por cento, e a taxa média anual de crescimento dos últimos vinte anos foi de 2,3% , o crescimento deste ano (2004) é meramente de reposição daquilo que o país deixou de crescer em 2003. Como não existiu nenhum acerto macroeconômico tão grande, além do retorno da credibilidade do governante, o governo Lula não apresentou, até então, nenhuma mudança estrutural significativa que possa implicar em um crescimento sustentado nos próximos anos, como ele próprio vem alegando. Na verdade, Lula vem fazendo uma profissão de fé, nada mais do que uma declaração de boas intenções com o futuro. É óbvio que qualquer brasileiro gostaria que o Brasil pudesse crescer algo em torno de 5% em 2005, mas tenho muitas dúvidas a respeito do assunto.
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